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História da Annablume


NÃO MATE A SUA TESE


Sob o slogan “Você que já defendeu, não mate a sua tese”, nasce em 1993 a Annablume Editora, com a proposta de dar mais visibilidade à produção da Universidade brasileira. Era um momento em que a publicação do trabalho acadêmico no Brasil acontecia de forma precária. Jovens pesquisadores praticamente não tinham como divulgar seus estudos.

 

A linha mestre era publicar teses e dissertações, antes destinadas a confinar nas prateleiras das instituições onde foram defendidas ou na gaveta do autor. Publicar significa transformar o texto em livro, divulgá-lo e distribuí-lo. O projeto só tinha sentido se a pesquisa fosse finalmente acessível aos pares acadêmicos e também ao público em geral.  O intuito era divulgar a tese, com suas características de texto de pesquisa, de forma que o leitor tivesse toda a carga informativa adjacente ao texto principal: bibliografia, metodologia, notas, etc. Para tirar a impressão pesada do formato de tese, foram desenhados livros pequenos, com 18 x 10,5 centímetros, e muito charmosos, cujas capas eram impressas em papel francês Canson, usado para pintura a cera. Assim ficou caracterizado o Selo Universidade, primeira coleção de teses e dissertações da Annablume, que chegaria a contar com 400 títulos.


A criteriosa seleção dos títulos era realizada pelo Conselho Editorial formado pelos professores Eduardo Peñuela Cañizal, Wili Bole, Lucrécia D´Aléssio Ferrara, Salma T. Muchail e Ubiratan D´Ambrósio.


Mas, para se realizar o objetivo, outro ponto precisava ser superado: introduzir no mercado a ideia da publicação de teses. Tratava-se de um produto editorial bastante singular. Havia enorme resistência dos livreiros na recepção de um livro oriundo de uma tese. A editora precisou convencê-los de que ali estava uma obra que, embora não tivesse apelo comercial, veiculava uma informação relevante, fruto de anos da dedicação de um autor. E mais: era preciso que o livreiro fosse sensibilizado da importância de se trazer a produção universitária à sociedade. Esta preocupação sempre orientou a ação da Annablume. Não queríamos apenas fazer livros, queríamos publicá-los. Há 20 anos, esse foi um diferencial significativo, pois as outras editoras que atuavam no segmento acadêmico não se dedicavam à distribuição.


Evidentemente, mesmo um grande esforço na distribuição não fecha as contas dos custos de produção e das despesas com manutenção de uma editora com este perfil. É preciso subsídio para evitar o outro lado da moeda: não publicar as obras porque, do ponto de vista unicamente comercial, elas são inviáveis. Somente com vendas o projeto não se sustenta. A postura da Annablume sobre esta delicada questão foi, primeiramente, ter uma rigorosa e independente seleção dos títulos a serem publicados e sempre fazer investimento próprio, ainda que parcial, nos projetos de publicação, de forma a ter de buscar nas vendas uma complementação das receitas da editora, evitando o vício editorial de viver unicamente da captação de recursos.


Assim, entre elogios e carinhosas taxações de lunáticos, em 27 de abril de 1993, a Annablume lançava seus quatro primeiros títulos. Numa tremenda festa que lotou o bar Bohemia na rua Artur de Azevedo, em Pinheiros, com direito a muito chopp, tulipas e performances, Norval Baitello autografava Dadá-Berlim: Des/montagem, Marília Figueiredo De(sig)nação: arquigrafia do prazer, Carlos Gardin O teatro antropofágico de Oswald de Andrade e Regina Cunha Lima O desejo na poesia de Ana Cristina César: escrituras de “Ts”.


“IMPRODUTIVOS”


A ideia de divulgar e publicar a produção acadêmica foi ganhando o entusiasmo de uma nova geração de pesquisadores, que chegava à Universidade após 20 anos de ditadura militar. Reflexo de um período de diálogo, de exposição e de troca de pensamentos. Entretanto, em meados dos anos 1990, um novo paradigma no intercâmbio entre acadêmicos mudaria o objetivo da publicação de pesquisas. A Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES) havia iniciado nos anos 1980 o ranqueamento das universidades do país, baseando-se na “produtividade” de seus departamentos. O polêmico processo tomou corpo e vulto, e, em 1988, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma matéria com a famosa lista dos improdutivos da USP, incluindo nomes de professores de muito prestígio. No início dos anos 1990, as consequências do ranking na academia brasileira já eram bastante concretas. Como reflexo, as agências de fomento à pesquisa e os próprios departamentos decidem criar programas de apoio à publicação.


Em meados de 1994, José Eli da Veiga, então professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, aparece na editora – ainda na acanhada sala do edifício Horsa I do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista – com a proposta de publicar sua livre docência Metamorfoses da política agrícola nos Estados Unidos. A grande novidade: iria solicitar da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) apoio para publicação dentro da linha criada pela instituição para este fim. Em dezembro do mesmo ano, chegava às livrarias o título, 25º do Selo Universidade, pela primeira vez com o logotipo da Fapesp.


Essa história ilustra um marco na atuação da editora. Foi o início de uma nova fase. Entre abril de 1993 e dezembro de 1994, a Annablume publica 26 títulos, quase todos em parceria com o autor. A partir de 1995, o número de originais que passaram a ser submetidos à avaliação cresceu significativamente, vindos de várias regiões do Brasil. Várias propostas de subvenção para publicação e de coedição começaram a surgir. Os livros, em sua grande maioria, passaram a ser viabilizados com o incentivo de instituições universitárias ou de instituições que apóiam a produção acadêmica. Ainda em 1995, Lucimar Bello Frange lança Por que se esconde a violeta?, com verba da Universidade Federal de Uberlândia; Lúcia Castello Branco e Ruth Silviano Brandão, Literaterras: as bordas do corpo literário, subvencionado pela Universidade Federal de Minas Gerais; e Junia Furtado publica seu mestrado O livro da Capa Verde: Lei e vida no distrito diamantino (1771) com o apoio do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. Em 1996, o Programa de Pós-Graduação em Língua e Literatura Francesa e a Annablume fazem conjuntamente a coleção Parcours, onde se veicularia a produção de professores do programa.


O novo patamar editorial da casa exigia outra dinâmica. Era preciso analisar uma quantidade cada vez maior de originais. Ampliou-se significativamente o corpo de pareceristas colaboradores e novas coleções passaram a ter conselhos que recomendavam os textos a serem publicados. Crescia também a equipe da casa para dar conta da produção, divulgação e distribuição das obras. No final de 1999, trabalhavam 10 pessoas na editora e o catálogo rompia os 400 títulos.


CRÍTICA CONTEMPORÂNEA


Toda esta produção gerou, paradoxalmente, uma crise editorial na Annablume. Recebia-se uma grande quantidade de originais, boa parte deles tinha indicação para publicação e se viabilizava pela captação junto a instituições. A distribuição se consolidava: atingia livreiros de quase todos os estados da Federação e a editora passou a participar de dezenas de encontros acadêmicos pelo Brasil e até no exterior, como foi o caso do estande na Brazilian Studies Association (Brasa), em Washington, no ano de 1998. A divulgação se realizava com várias matérias em jornais e revistas. Enfim, o projeto de publicação da produção acadêmica era realizado. Mas, se de um lado, iniciativas significativas puderam ser efetivadas – como a primeira coletânea do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Meio Ambiente da USP (Procam), organizada pelo José Eli –, de outro, se tornou evidente que se tratava de um projeto editorialmente muito passivo. A nova demanda de edição pela pontuação dava outro fim à publicação. Havia o mérito para o livro, havia a viabilização do livro, mas, em muitos casos, não havia o compromisso do autor com a divulgação de sua obra.


Era preciso fomentar novamente a veiculação de ideias, o interesse pelo debate. A Annablume necessitava agregar um novo critério editorial: privilegiar quem estava realmente interessado na publicação de seu trabalho. O passo foi a criação da coleção Crítica Contemporânea, em 1999. Concebida e dirigida por Josué Pereira da Silva, professor do IFCH da Unicamp, entre seus primeiros títulos estavam uma coletânea homônima à coleção e Metamorfoses do trabalho e Misérias do presente, riqueza do possível, ambos de André Gorz. O propósito era ofertar ao leitor novas obras de Gorz e ensaios de autores brasileiros que julgávamos relevantes para as discussões sociológicas sobre as novas formas de trabalho e suas implicações na sociedade contemporânea. Mudava o papel da Annablume, ela não só publicava a produção acadêmica, mas passava também a propor discussões.


Paulatinamente, novas coleções com a mesma orientação editorial foram lançadas em outras áreas. Antônio Carlos Robert Moraes, da FFLCH-USP, criou a coleção Geografia e Adjacências (2004), onde editamos, entre outros, A produção capitalista do espaço, de David Harvey. A coleção História e Arqueologia em Movimento (2006), inspirada e dirigida por Pedro Paulo Funari (IFCH-Unicamp), rapidamente tornou-se um marco editorial, pois pela primeira vez no país havia uma linha de publicações dedicada exclusivamente aos estudos arqueológicos e de história antiga feita por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Sua outra grande contribuição foi apresentar títulos com temas antes nunca tratados, como Amor e sexualidade: masculino e feminino nos grafites de Pompéia, de Lourdes Feitosa, Arqueologia da repressão: América Latina na era das ditaduras (Pedro Paulo Funari, André Zarakin e José Alberioni dos Reis, organizadores) e Subjetividades antigas e modernas, organização do próprio Funari com Margareth Rago. Ganhou rápido destaque também a coleção Cidadania e Meio Ambiente, coordenada por Pedro Roberto Jacobi (USP). Atenta ao movimento que os estudos ambientais seguiam internacionalmente, a coleção foi concebida para dar ênfase a um paradigma inovador na área, privilegiando obras relacionadas a temas como conflitos socioambientais, educação ambiental e sustentabilidade.


Neste contexto, é preciso lembrar que a consolidação da internet no Brasil foi um importante instrumento na realização do projeto editorial da Annablume. Em 2003, a editora colocava no ar seu site, que passou a disponibilizar os títulos a leitores que tinham dificuldade de acesso. Com o rápido crescimento do catálogo, que ultrapassou 1.000 títulos em 2008, o site se tornou a principal referência para consulta e compra de obras da editora, devido à facilidade de atualização e visita. O sucesso da iniciativa está demonstrado nas 8,3 milhões de visitas que já recebeu.


CORPO, QUEER E FLUSSER


Mas não bastava privilegiar o autor que estava comprometido com a publicação de seu trabalho. Aos poucos foi ficando claro ao corpo editorial da Annablume que era preciso estar sintonizado com pesquisadores que estivessem alinhados com novos arranjos do conhecimento. Em 2005, Christine Greiner, professora da PUC-SP, foi convidada a dirigir uma coleção nova na casa, Estudos do Corpo.  A ideia era desenvolver uma linha de estudos sobre um tema novo e sob uma nova ótica, a dos estudos interdisciplinares. Abrindo com um belíssimo ensaio sob o título O corpo: pistas para estudos indisciplinares, Christine, com a coleção, traz para o projeto da editora uma nova perspectiva de abordagem do tema, contemporânea às iniciativas que estavam mudando os parâmetros de organização da Universidade brasileira.


O projeto se reverbera editorialmente na criação da coleção Queer (2011), proposta por Richard Miskolci (Universidade Federal de São Carlos), que aprofundaria as linhas já colocadas por Christine Greiner sob uma temática ainda mais audaciosa, a dos estudos sobre sexualidades e gênero lidados como categorias analíticas, históricas e socialmente criadas.


Concomitantemente, a Annablume faz novamente um trabalho de recolocação de um nome de referência para o pensamento contemporâneo no século XXI. Depois de apresentar ao leitor brasileiro cinco obras de André Gorz, lança, entre 2007 e 2011, dez títulos de Vilém Flusser. Com ele, traz um novo paradigma para os estudos em diversas áreas, especialmente na Filosofia e também na Comunicação. Nos dois pensadores, uma mesma premissa: o texto escrito na forma de ensaio como crítica ao descompromisso que muitas vezes caracteriza o discurso acadêmico.


CLÁSSICA


Os 20 anos da editora e os diferentes caminhos editoriais que ela trilhou são reflexos do trabalho de um grupo de pensadores que colabora com a casa das mais diversas formas. A maturidade editorial da Annablume consiste em sua capacidade de estar sempre aberta a novas perspectivas, entretanto, fazendo suas opções com base numa experiência adquirida.


É o que possibilita à editora ter a credibilidade de parceiros de renome e com projetos consistentes, como a Cátedra Unesco-Archai da Universidade de Brasília, com a qual editamos conjuntamente a coleção Archai, dirigida por Gabriele Cornelli, e, desde 2011, com a Universidade de Coimbra. Pela primeira vez, a Annablume atravessa o Atlântico para desenvolver duas novas iniciativas editoriais, a coleção Classica Digitalia Brasil (dirigida por Delfim Leão), que traz para o Brasil a produção de altíssima de qualidade do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC, e a parceria de duas mãos com a prestigiosa e secular Imprensa da Universidade de Coimbra. Em 2011 e 2012, lançamos 20 títulos da IUC no Brasil, dentre elas a coleção dos grandes humanistas portugueses dos séculos XV a XVIII, Portugaliae Monumenta Neolatina, com 10 volumes bilíngues, latim e português. Em outubro de 2012, a Imprensa da Universidade lançava em Portugal 20 títulos da Annablume. Este intercâmbio de publicações acadêmicas, de proporções inéditas entre Brasil e Portugal, só se realiza quando há confiança recíproca nos propósitos editoriais entre os parceiros. Confiança porque a Annablume já tem uma vasta história, e pode ser considerada, entre as editoras acadêmicas brasileiras, por todas as suas singularidades, uma clássica.


 

 
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