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Amanhã vai ser maior
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Amanhã vai ser Maior:

O levante da Multidão no ano que não terminou

Bruno Cava & Giuseppe Cocco (orgs)

Formato 16x23 cm, 378 páginas

ISBN 978-85-391-0625-7


A multidão no Brasil – como na Turquia, Espanha e em todos os lugares do ciclo de lutas que se alonga desde 2011 – exige uma “democracia real”, contra a democracia fantoche que nos vendem o tempo todo. É, de fato, uma ideia bonita. Mas estariam as lutas políticas da multidão, apesar de explodir ruidosamente em cena, condenadas a ser fugazes e efêmeras, inefetivas contra os poderes dominantes? A falta de unidade e liderança central minaria qualquer consequência política duradoura para as lutas da multidão? Seria a vida dessa multidão “sem liderança” cheia de barulho e de fúria, mas sem significar nada? Ou, ao contrário, seria a força da multidão como o “leão proletário” de Marx: embora temporariamente subjugado e aparentemente domado, uma força selvagem que só vai ser verdadeiramente reconhecida no futuro? (do prefácio de Michael Hardt)

 

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PREFÁCIO
MALDITO JUNHO!



Inspirado por três dias de barricadas e insurreição nas ruas de Paris, em junho de 1848, Karl Marx escreveu que o “leão proletário” tinha se levantado e rugido. O proletariado parisiense revoltoso foi rapidamente vencido, mas a sua face sombria e ameaçadora chegara à cena da história. Nas “jornadas de junho” brasileiras, em 2013, a multidão mostrou a sua face de modo semelhante. Embora não tenha vencido imediatamente, este leão também pode anunciar notícias sobre nosso futuro.

Dizer que as revoltas surgidas nas ruas de Rio e São, em 2013, foram organizadas na forma da multidão significa dizer que, – em vez de dirigidas pelo partido ou uma direção centralizada ou mesmo um comitê de liderança acima das massas, – os movimentos foram auto-organizados, conectados horizontalmente pelo território social. Os movimentos não foram (e não se esforçam por ser) unificados e homogêneos, mas sim encontraram meios adequados para exprimir suas diferenças e antagonismos internos – e apesar de (ou por causa de) suas diferenças, descobriram maneiras de troca comum e cooperação, gerando uma série de demandas e perspectivas agrupadas na luta. Tal multidão não é desorganizada e não se forma espontaneamente, ao invés disso, ela requer uma atividade constante e intensa de organização.

A multidão no Brasil – como na Turquia, Espanha e em todos os lugares do ciclo de lutas que se alonga desde 2011 – exige uma “democracia real”, contra a democracia fantoche que nos vendem o tempo todo. É, de fato, uma ideia bonita. Mas estariam as lutas políticas da multidão, apesar de explodir ruidosamente em cena, condenadas a ser fugazes e efêmeras, inefetivas contra os poderes dominantes? A falta de unidade e liderança central minaria qualquer consequência política duradoura para as lutas da multidão? Seria a vida dessa multidão “sem liderança” cheia de barulho e de fúria, mas sem significar nada? Ou, ao contrário, seria a força da multidão como o “leão proletário” de Marx: embora temporariamente subjugado e aparentemente domado, uma força selvagem que só vai ser verdadeiramente reconhecida no futuro?

Antes de abordar essas questões, devemos enfatizar duas condições políticas e sociais contemporâneas que proveem o terreno sobre o que surge as revoltas da multidão.

Primeiro, as revoltas no Brasil, – assim como os acampamentos e ocupações pelo mundo, nos últimos anos, – estão baseadas na afirmação do comum – uma afirmação, especialmente, de tornar comum a metrópole ela própria. O acampamento no Parque Gezi, em Istambul, é exemplar para a exigência pela criação do comum. A fagulha dos protestos turcos se deu com a resistência ao plano neoliberal de privatizar o espaço público – no caso, a construção de um shopping center imitando antigos quartéis otomanos bem no parque central da cidade. Os movimentos, por um lado, se opuseram à privatização. Mas, por outro lado, também se opuseram ao controle público (quer dizer, estatal) do espaço urbano. No curso da luta, o movimento tornou o parque e a circunvizinha Praça Taksim um espaço comum, – aberto a todos e organizado segundo mecanismos de governança democrática. Esse desejo por um comum através de Istambul e além é uma maneira de exprimir o direito à metrópole. No Brasil, as fagulhas foram diferentes – a tarifa do transporte, os projetos de obras para a Copa do Mundo etc – mas reverberam o mesmo projeto de tornar o espaço urbano comum, reivindicando o direito à metrópole, para fazer nossa a cidade, como um território comum. O desejo pelo comum, especialmente em formas metropolitanas, é a cola que mantém unidos os movimentos da multidão.

Segundo, as revoltas da multidão no Brasil e em toda parte revelaram o poder de uma força de trabalho emergente. Gente jovem extremamente inteligente e, às vezes, altamente instruída, muitos com grande habilidade no uso da internet, se destacaram nas lutas. Alguns observadores, que se fiam em noções ultrapassadas, ligando a inteligência e as competências tecnológicas somente às classes altas, caracterizaram-nos como “classe média”. Mas, de fato, essa população mais frequentemente é empregada no mundo do trabalho de maneira precária. Essas pessoas são, a despeito disso, extraordinariamente produtivas, criativas e procriam novas formas de vida social – o que pode ser chamado de “produção biopolítica”. Com efeito, a lacuna entre as extraordinárias capacidades produtivas desses jovens e as oportunidades miseráveis oferecidas a eles, na sociedade contemporânea, tem sido uma das forças primárias das revoltas nos anos recentes. Temos que reconhecê-las como revoltas do trabalho, noutras palavras, revoltas do trabalho talvez de um novo tipo.

As duas condições – capacidades produtivas da multidão e desejo generalizado de fazer o espaço metropolitano comum – dão dicas dos poderes, consistência e durabilidade com que podemos definir o desdobramento das lutas presentes. Fornecem uma base sólida, para projetos de desenvolvimento das revoltas em processos que possam verdadeiramente transformar a sociedade contemporânea.

Mas elas não dão, ainda, uma resposta às questões políticas que coloquei acima. Como os movimentos atuais, organizados na forma da multidão, vão se tornar duradouros e efetivos contra os poderes dominantes? Pode ser também muito cedo para dar uma resposta adequada. Mas eu penso que seja útil guiar-se por duas proposições que Mario Tronti colocou no começo dos anos 1960, quando os movimentos de trabalhadores industriais na Itália estavam, de um modo semelhante, num estágio emergente da luta.

Em primeiro lugar, em termos gerais, Tronti propôs que a resistência é primeira em relação ao poder e, especificamente, que as revoltas da classe trabalhadora precedem e prefiguram os desenvolvimentos subsequentes do capital. As revoltas da multidão inteligente, noutras palavras, constituem uma força criativa que, mesmo se não seja imediata ou diretamente vitoriosa, determinará nos próximos anos os modos e eixos do desenvolvimento social. Esta proposição manda que se concentre nos poderes, na inteligência, e na criatividade da multidão em luta.

Disto, segue a segunda proposição, que ajuda mais claramente a abordar o nosso dilema político corrente. A política moderna (incluindo a tradição comunista) coloca a organização política como uma dialética entre a espontaneidade das massas e a direção dos líderes, por meio do que os movimentos (junto com suas demandas econômicas) exprimem interesses parciais e operam no nível da tática, enquanto os líderes políticos exprimem o interesse geral e são responsáveis pela estratégia. Nós chegamos num momento, contudo, Tronti propõe, em que devemos inverter a relação: daqui por diante, movimentos = estratégia, enquanto liderança = tática. Noutras palavras, os movimentos hoje são capazes eles próprios de formular e ditar a estratégia política, enquanto estruturas de liderança (junto com o próprio partido) devam ser usadas como matéria para a tática. Isto não consiste, no entanto, na visão de movimentos “sem liderança” – e muito menos uma afirmação da espontaneidade – mas, em vez disso: por um lado, a reivindicação das capacidades estratégicas coerentes dos movimentos para abordar efetivamente assuntos gerais políticos e sociais e, por outro lado, a proposta de usar (e descartar) as estruturas de liderança segundo as necessidades presentes e cambiantes da luta.

Parece-me que os movimentos já estejam quase na posição de cumprir a primeira metade do desafio. Eles já possuem – através da construção do espaço metropolitano como comum, por exemplo, e através das expressões da produção biopolítica – a capacidade de gerar uma visão política estratégica, geral, duradoura. Muito menos desenvolvida é a capacidade de gerar e operar estruturas de liderança de um modo tático. Tais estruturas temporárias de liderança devem criar contrapoderes potentes, mas sem se calcificar ou ameaçar tomar o controle; elas devem permanecer permanentemente subordinadas ao controle democrático e à vontade dos movimentos. Muito trabalho deve ser feito, mas a inversão de estratégia e tática fornecem um quadro útil para entender alguns dos desafios do futuro e também reconhecer a importância do que já está acontecendo – porque afinal tanto já foi realizado desde junho!

Talvez algum dia, no futuro, os senhores da ordem atual terão de olhar pra trás e lamentar aqueles dias malditos de junho, quando o leão rugiu e a multidão no Brasil mostrou a sua verdadeira face.


Michael Hardt

 

 

 

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