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Outros monstros possíveis
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Outros monstros possíveis: disforme contemporâneo e design encarnado
Barbara Szaniecki
Formato 16x23 cm, 260 páginas
ISBN 978-85-391-0642-4


Trata-se da linha desviante das micro-resistências, das sobrevivências e coexistências não pacificadas, o caminho errante ou linha de fuga das gambiarras, dos devires-galinha caipira, cão mulato ou gato pardo, só para usar alguns dos termos usados pela autora, que explica: para persistir nesse mundo-cão, precisamos criar, inventar, gerar mundos-gatos». Para construir as bases iniciais desta linha torta a autora cria ou se apropria de uma multidão de conceitos, noções e termos, todo um novo léxico é construído ao longo do texto: monstruação, multiformances, plataformas, commons, disforme, dentre vários outros.



POSFÁCIO DO LIVRO

 

OUTROS MONSTROS POSSÍVEIS DISFORME CONTEMPORÂNEO E DESIGN ENCARNADO

 



por Peter Pál Pelbart



Querida Barbara, sou aqui um peixe fora d´água, dada minha incompetência no campo das artes visuais, da história da arte ou do design. Portanto, peço que releve tudo o que aqui for dito de descabido. Começo por minha impressão mais geral sobre o seu trabalho. Tem um traço que me agrada muito no estilo da sua escrita: é uma certa narratividade que você inventou para dar conta do seu “objeto”. Você mobiliza e colhe vários fluxos urbanos, históricos, literários, teóricos, imagéticos, e constrói com eles uma espécie de acontecimento escrito. Você consegue uma intervenção no plano do sentido, da percepção, da afetação, um deslocamento na capacidade de olhar e de sentir e de conectar-se com um mundaréu de fenômenos dispersos, mas que ganham com seu agenciamento uma espécie de coerência, de coesão. O curioso é que ao agenciar planos muito heterogêneos, acolhendo rupturas de sentido, você como que produz ecos de sentido os mais sugestivos para prolongar-lhes os efeitos, a eficácia. Acho também que você tomou gosto com essa narratividade, e você apostou numa espécie de molecagem com a linguagem. Como no exemplo do gato. O gato como puxadinho, o balaio de gatos, a cultura do gato, a convivência turbulenta entre cães e gatos, o pulo do gato final. Nada disso é gratuito, o gato como enfrentamento às empresas que fazem do consumidor gato e sapato, e para resistir ao mundo cão o mundo gato, etc. Ou o cuspe semiótico e outras molecagens. É saboroso, é sugestivo, mas não é apenas um jogo de palavras gratuito. É brincar com um significante que circula, e cujos sentidos não estão congelados, porém dependem das diversas forças que se apropriam desse significante, com as inversões de sentido que lhe foram sendo injetadas.
Um leitor mais austero poderia perguntar-se sobre o estatuto científico de um fragmento assim construído. Nem de longe é o meu caso. Tenho plena consciência que seu trabalho não pretende ser um descrição científica, uma representação objetiva e neutra e asséptica, mas uma espécie de cartografia poético-política, portanto expressiva, por conseguinte, capaz de tensionar um campo de sentido múltiplo e aberto. Acho que você percorre, no seu trabalho, procedimentos diversos que ajudam a esclarecer o seu próprio modus operandi. Enfim, quis começar por esse tópico que está longe de ser acessório, pois está no núcleo do seu trabalho – a dimensão expressiva, estética num sentido amplo, essa aposta que faz acontecimento, e que constitui, assim, uma intervenção na apreensão sensível e na subjetividade coletiva. Insisto, não é a descrição de um mundo, mas um tensionamento do mundo. E este tensionamento, que é ele mesmo acontecimento, ressoa e faz ressoar com todos aqueles que ele colhe, agencia, intensifica, relança. Como diz Deleuze, a beleza de um quadro vem do fato de que ele capta um movimento que vem de fora dele, e leva para fora dele. Os livros de Deleuze e de vários outros autores que você usa também são assim, eles estão embebidos de exterioridade. E seu trabalho está nessa linha – é pura conexão com a exterioridade, com o fora. Mas essa exterioridade, esse fora, não é um mero estado de coisas, porém uma miríade de forças, em relação agonística e constitutiva. Bem, esse é um pequeno preâmbulo bem genérico, mas para mim importantíssimo.

Penso que o propósito do seu trabalho, nesse diapasão, é pensar o estatuto dessas novas máquinas sociais e expressivas que articulam o singular ao comum, nessa conexão cidades/trabalho/artes, para além das divisões estanques que as pensam separadamente, e para além das constantes universais com que costumam ser compreendidas e analisadas. Pois bem, para isso, você retoma e reinventa uma figura, a do monstro, muito instigante e provocativa, e com ela percorre essas novas formas de expressão do comum. Você faz do monstro o que Deleuze e Guattari chamariam de um personagem conceitual. Você pretende, não falar do monstro, tal como ele costuma representar o Estado conforme certa tradição, porém seguir a monstruação imanente, nesse arrastão que vai do precariado urbano às ocupações multitudinárias de uma Prestes Maia, passando pela galinha do Bijari. O monstro lhe serve para descolar-se da idéia de forma, tão pregnante e tão insuficiente para pensar esse estado de coisas híbrido, a desmedida contemporânea, que está no cerne da própria produção material e imaterial contemporânea. Nesse sentido, o trabalho com Bataille tem uma função estratégica no seu percurso, nessa solapagem sistemática do antropomorfismo, nessa prática ateológica. Você mostra, seguindo Didi Huberman, que não é bem transgressão o que ele faz, que os procedimentos são de contato, de contaminação, de gai savoir visual, e sua análise pontual das táticas evocadas por ele, o escárnio, a desproporção, o corte, seu cuidado em mostrar os procedimentos concretos é sugestiva e convincente. Dá gosto acompanhar o cuidado com o qual você vai educando o olho do leitor a aprender a dimensão dessas operações: esfolamento, opacificações, o informe não nos termos, porém nas relações, o fundo, o informe como um excesso de formas. Gosto de sua colocação de que a forma contemporânea do monstro foi precedida por um imenso laboratório de experimentações, do qual você nos apresenta alguns fragmentos significativos, e seus efeitos. E nos lembra, de maneira muito pertinente, o laboratório que foi o próprio Brasil, estendendo linhas sugestivas que vão de Gilberto Freyre a Oswald de Andrade, e mais adiante, até o tropicalismo ou a marginália. Nesse laboratório Brasil, a mestiçagem é concebida como uma flutuação da forma nacional, na contramão de uma concepção eugenista ou indigenista da própria brasilidade. Você salienta os efeitos de deformação no próprio antropomorfismo que aí estava implicado, a partir do movimento antropófago e sua metafísica bárbara (não estou jogando com seu nome, embora um lacaniano pudesse deleitar-se com a direção do seu trabalho). Por alguma milagrosa coincidência você cruza vários aspectos de um teórico que nos é caro a todos, um tal de Giuseppe Cocco, de cuja leitura você certamente se beneficiou muito, e também apreciei seu aproveitamento da bela pesquisa de Viveiros de Castro.

Também sou muito sensível a essa acuidade em pensar a cidade no contexto contemporâneo, não como uma forma dada, com suas segregações cristalizadas, porém como um campo atravessado por inúmeras desterritorializações, com espaços produzidos incessantemente, formas de vida agonisticamente em embate e em autoinvenção. Se sua perspectiva tem alguma afinidade com um certo leibnizianismo presente em alguns autores que você nem cita, como Rajchman, ou mesmo na sua utilização do Lazzarato, que você sim usa, creio que você é mais encarnada, como sugere o seu título, você vai mais longe, tem o mérito de pensar tudo isso a partir das formas de vida, das subjetivações coletivas que constituem essa cidade, das enunciações que a marcam e reconfiguram, dos fluxos humanos e inumanos que constituem a densidade real e expressiva da cidade, sempre atenta às especificidades locais e à própria história desses movimentos no Brasil, inclusive o modo como subvertem o que você chama de princípio-Brasília de cidade. É verdade que as táticas, contrapostas às estratégias, repousam sobre situações de emergência, irrupções, mudanças, mais do que sobre operações de projeção ou consolidação ou totalização, e jamais visam a dominação de um território, propriamente dito. Você não apenas sabe disso, mas também problematiza esse limite. Você vê a sobrevivência biológica, corporal, econômica se transformando em afirmação de formas de vida, criação de universos singulares e coletivos ao mesmo tempo, com desejos de comum inscrevendo novas modulações vitais, táticas e espaciais no tecido da cidade.

Eu acho que aí é onde aparece a sua invenção, a sua hipótese, eu diria, quase, seu outro personagem conceitual, para o qual você cunhou de próprio punho um neologismo, a Multiformance, no prolongamento da Estética da Multidão. A Multiformance comporta expressões híbridas, desde arte erudita, contemporânea, popular, folclore, design, cultura de massa, comunicação. Seus exemplos de Multiformance são sempre fortes, com um poder de evocação imenso, como o São Precário, o Fashion Real, o Nolex– toda essa carnavalização onde se conjungam precariedade, flexibilidade, combatividade, fantasia. Você mostra as táticas que infletem os sentidos, que revelam e escancaram os mecanismos de vampirização capitalista e biopolítica. Sua pesquisa de eventos, de intervenções, de imagens, de modalidades de expropriação e seus efeitos de reversão, de constituição de sentidos, é uma verdadeira mina de ouro. Creio que você mostra que aí, nessas intervenções, ocorrem mutações na subjetividade coletiva – você fala em transformações incorporais, e estou plenamente de acordo com essa designação. Além disso, há uma perspectiva singular sobre esses sem. Um Sem que é Com, como dz você, os Sem Teto, Sem Trabalho, etc.. em que medida aí se cria, bem ou mal, uma comunidade dos sem comunidade, em meio a essas passeatas, cortejos, procissões, festas, escrachos, nesse excedente, com essas máquinas de expressão, ao arrepio das formas de representação política obsoleta, ou das partituras mercadológicas, mesmo se sua eficácia por vezes é posta em dúvida, razão pela qual, talvez, você se viu impelida a pensar as outras instâncias em que isso ganha densidade e multiplicação, as Plataformas.

Mas ainda uma palavra sobre as Multiformances. Você insiste com razão na dimensão múltipla e polifônica desses fenômenos contemporâneos. Todo seu uso de Bakhtin é admirável. A sua expressão é muito feliz: a polifonia é um princípio de construção imanente. O que me agrada no seu texto é que você não usa apenas o polifônico como um adjetivo, que pode ser chique, ou até midiático, mas você se aprofunda para mostrar sua lógica, e justificar o seu uso. Creio que você utilizou de maneira justíssima e brilhante todo o instrumental proveniente de Deleuze e Guattari, sobretudo em Mil Platôs, sobre os agenciamentos corpóreos e expressivos, é uma utilização extremamente bem sucedida e poderosa, ou a diferença entre espaço liso e estriado, ou entre ferramenta e arma - é muito impressionante sua capacidade de ser fiel a um texto teórico e ao mesmo tempo mostrar em que sentido você o utiliza, e como o opera.

Você também faz um debate no interior daquilo que se convencionou chamar de campo da arte, sobretudo com autores como Bourriaud e Rancière. Creio que você foi muito feliz ao marcar sua diferença com a concepção de Bourriaud, que poderia, claro, ter servido de mote de leitura para diversos fenômenos que você analisa, mas se fosse esse o caso, sua tese seria inteiramente outra, e você teria traído seu escopo maior. Sua discussão com ele é boa, primeiro ao mostrar o contraste com Guattari, que pensava em termos de abertura dos processos de singularização para a heterogeneidade ambiental, social e mental, e não o enclausuramento no espaço astístico intersticial, quando não meramente institucional - daí seu belo neologismo, o da intersticionalização dos artistas..

Você também observa com acuidade que a transformação do autor de obras em operador de relações não impede o corporativismo do artista e a univocidade do campo.. e você acompanha a leitura de Alliez, que vê nessa perspectiva de Bourriaud uma despotencialização do artista e da carga explosiva proveniente dos anos 60 e 70. Aliás, sua combatividade não arreda pé, mas nunca é gratuita. Com Agamben, por exemplo, na questão da profanação, e a leitura teológica que ele faz (à qual você opõe o uso comum), ou a concepção larga demais do dispositivo que ele empreende, ou a indistinção subjetivação-dessubjetivação que ele tem tematizado, ou a visão um tanto indiferenciada sobre o triunfo do econômico e o eclipse da política, e uma indistinção entre biopoder e biopolítica daí decorrente. Você chama a atenção para a diferença entre uma genealogia combativa e uma genealogia teológica, e valoriza o contraste entre uso e consumo, tentando pensar o uso no interior de um agenciamento que extrapola o domínio técnico e o enquadre do consumo, na contracorrente de uma diabolização generalizada do presente. Ou no caso de Virno, com seu entendimento do comum centrado na linguagem como competência humana, mais do que como construção efetiva, ou o medo como motor da constituição da multidão,
você lhe contrapõe sua perspectiva negriana. Eu acompanhei essas polêmicas com interesse, e na maior parte das vezes eu as acompanhei também filosoficamente, eu diria, endossando suas divergências.

Em alguns momentos de seu texto o leitor sente sua obstinação em marcar posição, em detectar os aliados e os adversários, as concordâncias com fragmentos de um autor, e a rejeição de outros segmentos desse mesmo autor. Ora, isso é interessante, pois percebe-se que você não compra um pacote teórico inteiro, muito menos se deixa arrastar por algum modismo ou argumento de autoridade, você o perscruta, o filtra, o testa, o agencia com seus elementos e materiais, a partir, digamos, desse fundo negriano que constitui seu crivo maior. Sua combatividade faz com que você tome partido, em cada caso, em cada situação, em cada exemplo, em cada conceito. Isso tudo é ótimo e legítimo. Ocorre que em alguns momentos seu texto ganha uma assertividade excessiva, como quem desfralda uma bandeira, como quem quer que o leitor tome partido, e incorre no que Barthes definiria como um “desejo de agarrar”. É claro que nos contextos complexos que nos rodeiam a combatividade não deve arrefecer em nada, ela é ainda mais necessária, embora tenha mudado de forma, o traçado e a dinâmica da conflitualidade eles mesmos tendo sido redesenhados. Mas nem sempre conseguimos dar expressão a essa mudança. No geral eu creio que você sim consegue, com a sua narrativa, com a máquina expressiva que é sua tese, com a complexidade que você assume e desdobra, mas por vezes se desprende um tom que discrepa disso. Por isso eu queria te colocar essa questão, sobre a relação entre combatividade, voluntarismo, assertividade, complexidade, indeterminação, errância, num trabalho como esse. Não é uma objeção, é uma pergunta mesmo, eu diria, é uma questão com a qual eu me enfrento às vezes quando vejo um campo problemático tão complexo por vezes comportar mais lacunas e indeterminações e imponderáveis do que a nossa ansiedade de teorização ou de intervenção ou de ativismo ou de vontade gostaria de reconhecer. Isso implica numa série de questões que transbordam inteiramente o enquadre da sua tese, sobre a suspensão, o involuntário, o próprio estatuto do tempo, como pretendo mostrar no final dessa minha fala.

Uma palavrinha sobre o terceiro bloco, dos cérebros em conexão, das Plataformas, vetorizados pela idéia de uma era pós-mídia. Como diz você, mesmo se por vezes parecem ter uma força antagonista baixa diante dos monopólios midiáticos, liberam imensa potência conforme a densidade de suas articulações, e distribuem, dispõem, maquinam as multiformances na rede social. Assim, você perfaz o circuito, mas também entende a que ponto elas produzem novas conversações, profanações, máquinas de guerra, e dão consistência e proliferação. Adoro essa parte sobre a Zona B, essa construção de uma outra Europa, dos Balcãs, dos errantes, judeus, ciganos, migrantes, africanos e asiáticos, todos esses nômades, a partir do trabalho de Angela Melitopoulos. De fato, se o Império não tem fora, a multidão se constitui em movimento para fora. É uma cartografia que ao mesmo tempo propõe uma outra genealogia frente à pretensa unificação européia. Ou o Desligare, as piratarias e os gatos, como já mencionei, e claro, sobre a Global. Nesse caso, o principal era mostrar uma nova função do designer contemporâneo, não como personagem capturado, mas como diz você, um híbrido, agente ambulante de uma máquina de guerra, e creio que seu trajeto na história dessa revista o atesta de maneira o mais enfática e admirável, sempre fiquei deslumbrado com esse aspecto que você conseguiu imprimir e sustentar no interior desse projeto.

O que atravessa o seu texto, eu diria até, de uma ponta a outra, e que é uma pergunta à qual até agora ninguém conseguiu uma resposta satisfatória, pois talvez não exista resposta possível, a não ser caso a caso, singular, concreta, é a sua pergunta: que multiplicidade consistente é possível constituir? Sua pergunta diz respeito, portanto, também à duração no tempo. Um pouco como Negri pergunta a Deleuze, como prolongar na história o esplendor do acontecimento? Essa pergunta reaparece: que dispositivos podem permitir a manutenção de algum nível de consistencia estética ou de mobilização política para além do evento? Ou seja, será que o acontecimento carnavalizado não é por demais efêmero, não se esgota em si mesmo, não poderia esvaziar-se na mera fulguração e desaparecimento? Mas você mesma responde, o acontecimento não representa, mas cria mundo, produz mundos. As multiforances produzem mundos, assim como as Plataformas os multiplicam ou maquinam. É essa dimensão que está presente em seu trabalho fortemente, a unidade acontecimental da multiformance ou a proliferação da plataforma. Em todo caso, não há mais matéria organizada pela forma, mas material complexo que libera forças, forças não sonoras, não visíveis, que se maquinam.. Não é ideologia versus estrutura, nem mesmo acontecimento versus estrutura, mas como você mesma diz, uma maquínica, cromatismo generalizado, linhas de variação: “Os Sem teto produzem variação da moradia na cidade, catadores de papel e camelôs desterritorializam o sistema economico centrado no trabalho assalariado”, etc. E o sentido positivo da variação para você é forte, variação é resistência, são tensores, é uma pragmática, é o devir-menor de uma língua, de uma forma de vida, o próprio devir como um potencial. Mas ainda assim, há uma inquietação que não arreda, dar a todo esse conjunto uma consistência que por vezes parece por demais efêmera. Seu capítulo sobre o tempo, a meu ver, obedece a essa preocupação. Não basta dizer que as plataformas multiplicam, disponibilizam, maquinam, não basta mencionar o devir, o aion, o intempestivo, mesmo que todos eles possam servir para ler certas intervenções – você precisa de algo mais, que eu resumiria com sua expressão: do intempestivo ao constituinte. Você precisa de uma qualificação temporal do processo constituinte. Daí esse milímetro a mais, do Devir ao Porvir (o Porvir é uma diferença, um sobressalto criativo, diz você), do Aion ao Kairos, onde coexistem eternidade e inovação. Kairos reintroduz uma flecha do tempo (“nesse campo de eventos abertos por aion, pode intervir a flecha do sentido que é kairos”) . Em substituição à fórmula de Lazzarato, constituição=devir, você opta por manter porvir e devir.. Porvir e devir, constituição e acontecimento, produção e criação, suor e vapor. Nem igualdade nem oposição nesta série, mas sim coexistência e tensão. Claro, não vou discutir sobre isso, muito menos argumentar, a favor ou contra, minha intenção era mais levantar essa lebre, na esteira do que coloquei há pouco. Creio que você usa Deleuze e Guattari lindamente, em todo o trabalho, da maneira mais criativa e ao mesmo tempo aguda. Mas ao final você precisa de um pequeno arremate negriano, sem o qual, parece ser, o sentido militante do texto, ou o sentido constituinte de tudo isso, ou o sentido finalizado de seu trabalho, talvez não ficasse suficientemente enfatizado.

Queria por fim parabenizá-la, seu trabalho é uma contribuição relevante para todos nós, que cruzamos esse campo de práticas, de autores, de estranhamentos, essas cidades, essas revistas, essas multiformances ou plataformas. Muito obrigado.


 
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