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Ser Judeu

Judaísmo como fonte do Ocidente

O judaísmo por ser considerado, a meu ver, de pelo menos dois ângulos inteiramente distintos. Um diz respeito ao judaísmo como conjunto de ritos, o outro ao judaísmo como cosmovisão e como projeto de vida. Ambos aspectos empolgam a mente contemplativa. O primeiro aspecto empolga pela continuidade persistente da sua tradição, e pelo entusiasmo abnegado que provocou em tantos no curso da sua história milenar e acidentada. O segundo aspecto empolga pela influência decisiva que exerceu sobre a civilização ocidental e, por isso mesmo, sobre os destinos da humanidade. Mantendo em mente a distinção rigorosa desses dois aspectos, pretendo defender, neste artigo, a seguinte tese: o judaísmo como cosmovisão e como projeto de vida está integrado na nossa civilização no sentido hegeliano do termo “aufgehoben”. A nossa civilização conservou o judaísmo (visto sob este aspecto) e superou o judaísmo elevando-o para um nível novo. Proponho, em primeiro lugar, um esboço rápido do judaísmo visto sob este aspecto, e, em segundo lugar, uma consideração daquele “aufheben” hegeliano.

Tratarei primeiro daquilo que me parece ser a teoria de conhecimento judaica, embora seja o pensamento judaico visceralmente oposto a toda teoria, portanto estranho à filosofia (os filósofos judeus superam, por serem filósofos, a cosmovisão judaica). A verdade é a relação entre conhecedor e conhecido. No judaísmo, essa relação parte do conhecido e visa o conhecedor, ou, em outras palavras, o conhecido, (a “realidade”), se revela. A verdade judaica, (“emet”) é a revelação da realidade, uma revelação que o homem recebe, inicialmente, de maneira passiva. A atividade conhecedora do homem restringe-se à elucidação e à explicitação da verdade revelada. O conhecimento no sentido judaico é um processo progressivo da explicitação da verdade revelada, ou, falando praticamente, é a soma sempre crescente de comentários de textos sagrados. A única fonte de conhecimento são esses textos, porque revelam a realidade. A tradição tem portanto função epistemológica no projeto existencial judaico, porque aprofunda o conhecimento. A passividade da noção judaica da verdade é um traço que distingue a mentalidade judaica da grega, (para o qual a verdade deve se pesquisada e descoberta), e da latina, (para a qual a verdade deve ser investigada e conquistada).    

A noção da realidade está intimamente ligada à noção da verdade. Na cosmovisão judaica, a realidade transcende o mundo fenomenal (a “natureza”), mas a natureza não deixa de ser, nem por isto, uma província da realidade. A natureza (o “olam hazé”) é tão real quanto o transcendente (o “olam habá”), mas as categorias que prevalescem nessas duas províncias da realidade são assimétricas e apresentam problemas. O “olam hazé” é temporal e fluído, o “olam habá” é eterno e constante. O “olam hazé” é histórico no sentido estrito deste termo: ele tem começo e fim, foi “criado” e terá um “último dia”. Não passa portanto de uma fase transitória do “olam habá”, mas é, a despeito disto, o único palco da atividade humana, já que o homem é um ser histórico e, como tal, condicionado pela sua circunstância, que é a natureza. A verdade revelada abre, no entanto, uma janela para o “olam habá”, uma janela que a atividade explanatória dos comentários mantem sempre aberta. Essa noção judaica da realidade (que, a meu ver, não resiste a uma análise filosófica, mas que se conserva pelo seu dinamismo ético) contrasta com todas as noções da realidade das quais temos conhecimento. Para os gregos e hindus, por exemplo, é a natureza irreal (fenomenal), embora deixe entrever a realidade que se esconde atrás dela.

A ética judaica é uma consequência lógica da sua ontologia, embora historicamente seja mais provável que a ética antecedeu a ontologia. Os termos fundamentais dessa ética são “fidelidade” (emuná), “justiça” (tsedacá), “obra” (mitsvá) e “pecado” (khet). A ética, que trata do “dever-ser”, é uma consequência do “ser”, do qual trata a ontologia. A fidelidade é a atitude a ser mantida pelo homem para com a verdade revelada como condição fundamental de um comportamento justo. A justiça é a aplicação dessa verdade ao “olam hazé”, de maneira que as coisas desse mundo sejam o que devem ser de acordo com essa verdade. A obra é o método de aplicação da justiça, e na dedicação a esse método reside a dignidade (também mitsvá) da condição humana. O pecado é resultado de infidelidade, que por sua vez resulta em injustiça e faz com que as coisas não sejam o que devem ser, desvirtuando assim a natureza. O pecado é uma perversão da verdade, e, portanto, uma perversidade. A ética judaica estabelece portanto um “bem” e um “mal” (verdade e pecado) e a justiça judaica (isto é importante notar) não é uma procura de equilíbrio, mas uma decisão em prol da verdade. Essa ética contrasta violentamente com as noções gregas (para as quais o contrário da verdade não é o pecado, mas o engano) e com as noções latinas (para as quais a justiça e a virtude são procuras de posições equilibradas).

A estética judaica tem a ver com a noção da “pureza” (cachrut). Para podermos compreender esse termo, é preciso que esqueçamos a noção da pureza (katharsis) que herdamos dos gregos. As categorias estéticas judaicas não são tanto o “belo” e “feio”, mas o “puro” e o “nojento”. A vivência do puro é a tranquilidade de espírito, e a vivência do nojento é a vergonha. Assim o corpo nu é nojento, e andar nu é vergonhoso. Uma mulher vestida de acordo com os mandamentos que derivam da verdade revelada é bela (isto é, pura). Como se vê, a estética judaica é informada pela ética, e dela não pode ser separada. O problema da arte e da obra artística não se põe, portanto, nas categorias às quais estamos acostumados pela nossa herança grega. A única obra de arte que interessa existencialmente ao pensamento judaico é a vida humana. Viver uma vida pura é a única forma existencialmente importante de criar beleza. Os problemas estéticos gregos, como o da criação (poiesis) e imitação (mimesis), se põem apenas negativamente e apologeticamente no pensamento judaico. Criar é prerrogativo do transcendente, (“não deves fazer outros deuses”), e imitar é pecado (“não deves fazer imagem de Mim”), e a arte no sentido grego é, portanto, nojenta.

Finalizando este curto esboço da cosmovisão e do projeto existencial judaico, o qual confesso ser resumido demais para ser “justo”, direi que essa cosmovisão e esse projeto tem a ética como seu centro. E a partir da ética judaica, portanto a partir da “praxis”, que devemos tentar uma penetração do pensamento judaico. Tendo esse fato em mente, passo a defender minha tese, pela qual é a cosmovisão e o projeto existencial judaico “aufgehoben” na civilização ocidental da qual todos participamos, sejamos ou não judeus.

O Ocidente é, obviamente, palco da luta de tendências divergentes. Isto confere ao Ocidente aquela elasticidade e pujança que o caracterizavam até recentemente. É lugar comum que o cristianismo como síntese de elementos judaicos, gregos, egípcios, persas, latinos, e, quiçá, hindus forma a base do Ocidente, é lugar comum, mas não deixa de ser verdade. Escolhi, entretanto, trilha menos pisada para conduzir o argumento. Escolhi, com efeito, o esquema do esboço que apresentei aos leitores. A epistemologia ocidental opera com uma variedade de noções da verdade, e a verdade judaica é uma delas. No campo da ciência domina o conceito grego da verdade como “o descoberto”, embora a noção da “revelação” não esteja inteiramente ausente. No pensamento religioso, tanto católico como protestante, domina a verdade judaica. Mas é no pensamento filosófico que uma síntese das diferentes verdades é almejada. A fenomenologia como submissão paciente à coisa que se revela é uma vitória da noção judaica, e o pensamento existencial como fidelidade à própria autenticidade que se revela pela consciência é um renascimento surpreendente do projeto existencial judaico. A verdade judaica está conservada na epistemologia ocidental de maneira fecunda, embora elevada a um nível de significado novo, e, neste sentido, ultrapassada.

A ontologia judaica com toda a sua problemática do aquém e além, de corpo e alma, de secularidade e eternidade, é uma praga que acompanha o Ocidente e é refratária a todas tentativas de solução empreendidas. Pelo contrário, tendo o Ocidente elaborado as consequências da noção judaica da realidade, que se encontram no judaísmo apenas em esboço, conduziu toda essa cosmovisão ao absurdo, não conseguiu substituí-la. Neste sentido negativo conservou o Ocidente o senso de realidade judaico, elevou a sua absurdidade a níveis imprevistos, e superou essa absurdidade no sentido de perda de todo senso de realidade. A crise da ciência e o desespero existencial são sintomas atuais deste processo. Mas o senso de historicidade que caracteriza o “olam hazé”, e que é tão tipicamente judaico, caracteriza igualmente o Ocidente e o distingue de todas as demais civilizações, dedicadas à circularidade do tempo.

A ética ocidental tem uma dimensão política, uma dimensão jurídica e um fundamento tradicional de costumes. Na política prevalece o pensamento grego, embora a ideia do messianismo seja um traço tipicamente ocidental, e mais evidente nas sociedades ortodoxas eslavas. Na jurisprudência prevalece o pensamento latino, embora fortemente adubado por noções judaicas que a penetraram por via do cristianismo. Mas é nos costumes, na “moral” em sentido estrito, que a ética judaica domina. O pecado é um conceito tipicamente ocidental herdado dos judeus. A nossa fé como “fides” (fidelidade) e as nossas obras como serviço ao transcendente são traços tipicamente judaicos. E todas as tentativas de uma transvalorização dos valores judaicos são fadadas ao malogro. Na vida diária, na atitude ante o próximo, e na busca de felicidade, todos os ocidentais são judeus. A escolha existencial, a liberdade que temos como ocidentais, reside justamente nisto: ou praticamos boas ações, ou cometemos pecados. É verdade que a ética judaica foi acrescida de diversas novas dimensões, por exemplo pela importância central que assumiu a noção do amor (pelo menos em teoria) e pelo papel decisivo da graça. Mas estas conquistas novas não passam de elaborações contidas, de forma esboçada, no projeto judaico. A atitude moral fundamental do Ocidente, que chamamos de “atitude cristã”, é uma atividade judaica. O Ocidente conservou fidelidade à ética judaica, embora elevando-a a novos níveis, e superando-a na política e jurisprudência pela assimilação de noções gregas e latinas.

Na estética, a herança judaica é menos fecunda. Mas é novamente o pensamento existencial que a faz renascer com suas angústias e nojo. A pureza judaica renasce, nesse pensamento, como autenticidade, e o sentimento de vergonha que acompanha, qual sombra, o pecado no pensamento judaico, é a mola mestre da luta dos pensadores existenciais em prol de um novo empenho. A nova arte que surge da fenomenologia e do existencialismo, seja ela “abstrata” ou “concreta”, é a articulação de um sentimento estético fundamentalmente judaico.

Em conclusão posso dizer que o Ocidente continua judaico em muitos aspectos, e mais especialmente na sua moral, e que o judaísmo está fecundamente preservado, radicalmente elevado, e, neste sentido positivo, superado pela civilização da qual participamos. A partir desta conclusão, passo a considerar rapidamente a ontologia judaica e o silogismo. Ambas são tentativas de limitar severamente os liames que unem judeus ao Ocidente, e ambas o fazem em procura de pureza. A ortodoxia quer preservar a pureza num sentido aproximadamente medieval, o sionismo nos moldes do nacionalismo do século 19. Ambas tentativas são admiráveis pela carga emocional que possuem, e o sionismo tem a seu favor um argumento de ordem prática. Estado judaico como refúgio e resseguro (mas o Estado judaico surgiu com um atraso de dez anos e não conseguiu evitar a chacina hitlerista, o que tira um pouco o valor deste argumento. O estabelecimento do Estado judaico poucos anos depois do fechamento do último forno é o exemplo mais terrível da ironia trágica que a história fornece). Tanto a ortodoxia como o sionismo são, como disse, admiráveis, mas são, a meu ver, profundamente enganados. Consideram-se, ambos, centros e núcleos do judaísmo, quando são, a meu ver, fenômenos de periferia. Por reduzirem a sua participação na civilização ocidental, limitam severamente a função universal e cosmopolita do judaísmo. Creio que um católico fervoroso e um marxista convencido são muito mais radicalmente judeus que as duas tendências em apreço.

O judaísmo como cosmovisão e como projeto de vida é uma das fontes (quiçá a fonte principal) da civilização do Ocidente. A sorte dessa civilização está atualmente em jogo, não tanto pelos ataques externos que sofre, mas pela erosão interna dos seus valores. Estes valores são, como tentei demonstrar, em grande parte judaicos. Não sei se estes valores merecem ser conservados, já que tiveram como consequência não somente o enorme tesouro cultural, mas também fanatismos e brutalidades dos quais os próprios judeus eram vítimas prediletas. Mas como Ocidental, e como descendente de judeus, tendo a simpatizar com esses valores. Sei que a sobrevivência dos valores judaicos depende da sobrevivência do Ocidente. Embora nutra graves reservas mentais, sou portanto empenhado no Ocidente. Essa minha posição não é individual, mas típica, e é por esta razão que ouso submeter este artigo à apreciação dos leitores.

Vilém Flusser

 

 

Ser Judeu

Vilém Flusser

Formato: 14cmx21cm, 246 páginas

ISBN: 978-85-391-0678-3
 
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