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Gestos Vilém Flusser

Gestos

Vilém Flusser
Formato: 14cmx21cm, 120 páginas
ISBN: 978-85-391-0677-6


Gesto é um movimento no qual se articula uma liberdade. Embora seja o gesto, enquanto movimento que é, tão determinado e explicável quando qualquer outro movimento, tais explicações não satisfazem porque não atingem a liberdade que se articula no gesto. A competência de uma teoria geral dos gestos seria o estudo das articulações (expressões) da liberdade. Seria teoria "formal", porque seu campo não seria a liberdade, mas as expressões da liberdade. Seria, pois, uma teoria da expressão, uma semiologia. Mas uma semiologia que dependeria das informações fornecidas pelas disciplinas que explicam os gestos objetivamente. A contradição dialética entre dados objetivos e interpretações (decodificações) seria o campo da teoria proposta, por ser o gesto fenômeno que ocorre em tal campo. Ponte entre as ciências do "espírito" e as da "natureza".


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OS GESTOS DE VILÉM

Gustavo Bernardo

Na vasta obra de Vilém Flusser, Gestos é emblemático. Ao se debruçar sobre o que dizem e principalmente não dizem os gestos humanos, o pensador revela um duplo princípio que se encontra na base de toda a sua filosofia. Esse princípio duplo tem obviamente duas chaves: primeiro, a de que toda comunicação implica uma atitude, portanto um gesto; segundo, a de que toda atitude implica uma mensagem, portanto uma comunicação.

As duas chaves abrem muitas portas, mas se e somente se forem usadas juntas, como nas portas da casa da gente, que precisam de uma chave normal, digamos assim, e de uma chave sextavada. Claro, há quem use ainda dois trincos de aço, um em cima e outro em baixo, mas eles não servem muito à metáfora.

No entanto, importa saber que a filosofia flusseriana não esconde as metáforas que a motivam, como procura fazer o texto acadêmico clássico, em especial no Brasil. Também não esconde a ironia que a constitui, embora muitos leitores mais duros, digamos assim, não percebam essa ironia e leiam à letra o que era para ser lido a contrapelo.

Para Abraham Moles, o que Flusser fazia era uma espécie de ficção filosófica que se apoia tanto na metáfora quanto na ironia. Para o filósofo e engenheiro francês, que nasceu no mesmo ano que Vilém, em 1920, e morreu um ano depois, em 1992, o pensamento filosófico constrói sistemas fechados, acessíveis apenas a especialistas que dominem a terminologia e saibam navegar entre as citações. Em contrapartida, a literatura ensaística, se de maneira acessível toca nas questões que interessam de perto à maioria das pessoas, não o faz com o rigor necessário.

Logo, seria necessário outro caminho, tão rigoroso quanto aberto e acessível. Moles via no pensamentodo filósofo tcheco-brasileiro este outro caminho, a que chama de Philosophiefiktion. A ficção filosófica flusseriana se mostra capaz de abrir uma brecha pela qual se comunicam a vida e a filosofia. Essa comunicação, por sua vez, se materializa nos diferentes gestos estudados neste livro.

A versão alemã, intitulada Gesten: Versuch einer Phänomenologie, é publicada pela  Bollmann em 1991. Trata-se portanto do último livro publicado por Flusser em vida. A versão espanhola, intitulada Los gestos: fenomenología y comunicación, é publicada pela Herder em 1994. A versão francesa, intituladaLes gestes, é publicada pela D’Arts em 1999. A versão americana, intitulada Gestures, é publicada pela University of Minessota Press em 2014.

Finalmente, os leitores em língua portuguesa podemos ter acesso à versão em português, graças à editora Annablume, que vem publicando toda a obra do filósofo em nossa língua. Destaque-se que essa versão é escrita originalmente por Flusser em português. O pensador, como se sabe, costumava escrever e reescrever todos os seus textos em quatro línguas, nessa ordem: alemão, português, inglês e francês. Curiosamente, ele só não escrevia em tcheco, sua língua materna, porque a considerava “adocicada demais”.

O prefaciador do livro deve resistir à tentação de comentar todos os gestos pesquisados por Flusser, mas não pode deixar de comentar justamente o gesto de pesquisar, que também podemos entender como o gesto da busca. Na história do ocidente, quem começa a pesquisar formal e intensamente é o burguês. É ele quem constroi o que conhecemos como método científico, como método de pesquisa.

O problema é que, seguindo o mestre Descartes, que duvidava de tudo mas apenas para acabar com todas as dúvidas, o burguês pesquisa para no fim acabar com toda a pesquisa, isto é, com toda a busca. O método científico, portanto, contém em si mesmo sua própria negação.

Para Flusser, o gesto de buscar não deveria ser modelo para os demais gestos, porque quem busca não busca coisa alguma que se haja perdido. Em outras palavras, o burguês busca com indiferença, não estabelecendo meta que não seja a de parar de buscar, nem atribuindo valor que não seja o valor zero. O lugar ocupado pela investigação científica em nossa sociedade encontra-se, no fim, em contradição com a investigação mesma.

Ao longo de mil anos o interesse dominante é o de conhecer a Deus e à alma. Mas o burguês revolucionário é dominado por interesse de outra índole: ele deseja conhecer a natureza. Mas que natureza? Basicamente, a natureza física, a natureza que carece de movimento e que se possa despir de vida, dissecando-a.

Em relação ao milênio que o antecede, o interesse do burguês se configura, no mínimo, menos interessante. Escapar aos problemas que interessam aos homens e dedicar-se a alguns objetos sem interesse – eis o típico gesto burguês e humanista. Os objetos físicos se mantêm à distância, são simplesmente objetos, logo, o homem se pode arvorar em seu sujeito, pode conhecê-los de maneira objetiva.

Em relação a coisas tais como pedras e estrelas, o homem põe a si mesmo no lugar de um deus, o que ele não pode fazer em relação às catedrais, às enfermidades e às guerras, se nestas coisas está implicado e interessado. Por isso o conhecimento objetivo é a meta do humanismo. Nessa forma de conhecimento o homem se sente ocupando o lugar de Deus. Nessa forma de conhecimento pode de fato conhecer, porque conhece o que não interessa, na verdade, segundo Ortega Y Gasset, conhecendo mal.

O escolástico diz, preferencialmente em latim, ignoti nulla cupido, mas a verdade residiria no conselho inverso: “só conhecemos bem aquilo que teríamos desejado de algum modo ou, para falar mais claramente, aquilo que previamente nos interessara”. Em consequência, o gesto da busca de um conhecimento objetivo e exato está a ponto de converter-se em algo impossível.

Os físicos contemporâneos buscam, com a máxima seriedade, a teoria final, que integre o infinitamente pequeno ao infinitamente grande. Buscam, dessa maneira e por via dessa hybris, encontrar Deus, ou melhor, transformar Deus no seu objeto. Encontramo-nos, portanto, à beira do abismo, o qual chamamos carinhosamente de “a teoria final”.

O limite da crise permite, entretanto, observar a emergência de um novo tipo do mesmo gesto de buscar. Não se pode buscar à vera sem por sua vez desejar e sofrer, isto é: sem valores. O gesto de uma atitude pura, eticamente neutra, é gesto escamoteado, inumano: nada menos do que um sintoma de alienação e loucura.

Quando se trata de conhecer objetos inanimados, a alienação é epistemológica, e neste caso um erro. Mas quando estão em jogo enfermidades, guerras, injustiças, a alienação se converte em gesto criminoso. O investigador, que se aproxima da sociedade como se de um formigueiro se tratasse, e o tecnocrata, que manipula a economia como se fosse um jogo de xadrez, são tão criminosos quanto o brilhante engenheiro citado no romance de Arturo Perez-Reverte, Testemunho comanche.

Esse engenheiro, ao inventar o projétil que fazia ziguezague dentro do corpo do inimigo, batizou-o de Bala Louise e foi comemorar com a família na Disneylândia. O doutor Frankenstein, que inventou o monstro, e Oppenheimer, que inventou a bomba atômica, apertam as mãos e se congratulam um com o outro.

O investigador, na forma presente, transforma fenômenos em objetos: do canto de um pássaro faz uma vibração acústica, da dor humana uma disfunção do organismo. Desconecta da sua consciência que é pago por alguém para sua busca, e também não considera se o invento ou o paper são bons ou maus para a sociedade, porque se preocupa apenas em publicar para não perecer.

Vilém Flusser, ao contrário, escreve para mostrar a ironia intrínseca a toda a escrita e a todos os gestos. Ele pensa para que possamos rir um pouco de nós mesmos. Ora, nenhum gesto pode ser mais sério do que este.

 

 

 

 

 
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