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Estrangeira: uma paraíba em Nova Iorque

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Estrangeira: uma paraiba em Nova Iorque
Berenice Bento
Formato: 14x23 cm, 181 páginas
ISBN:978-85-391-0792-6

 

Nova Iorque, cidade cinematográfica, no olhar de Berenice, uma paraíba, como ela gosta de ser chamada, perde seu glamour. A cidade dos musicais e do Wall Street convive com níveis de miséria econômica e existencial que estão fora dos guias turísticos. A vida dos imigrantes, dos sem-teto, as jornadas de trabalho que remetem ao período inicial do capitalismo, nos diz: é preciso ser destituído de qualquer projeto social mais humano para se supor que do capitalismo, materializado na arrogância dos milionários nova-iorquinos, possa surgir algo novo. Ao mesmo tempo, o livro é uma homenagem aos imigrantes que constroem aquela cidade transformando suas paisagens, misturando línguas e corpos.

 

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Assimilação e diferença

 

Nada é mais estranho para os moradores do meu pueblo que a noção de assimilação à cultura estadunidense. Quando me perguntam como é viver nos Estados Unidos, respondo:

- Não estou nos Estados Unidos. Estou em Nova Iorque e o meu bairro é a República Dominicana.

Há décadas os dominicanos começaram a chegar por aqui e foram se estabelecendo, fixando-se e moldando o local a seus costumes, ritmos e valores. Os corpos das mulheres e dos homens são fartos, nutridos com a habichuela, losmaduros, abacates, carnes, guisados, sopas com fartos ingredientes. Quando andam, parecem que estão ensaiando passos de bachata.

No restaurante, depois de feito o pedido, invariavelmente, a garçonete vai te perguntar:

- Com abacate?

Isso significará cerca de três dólares a mais na conta. Quase todos comem o prato principal, acompanhado de uma saladinha de abacate. A refeição principal consiste em feijão, arroz, a carne do dia e mandioca. As minhas papilas gustativas ainda não notaram que não estamos no Brasil.

Casa e rua se misturam. Do outro lado da rua, é possível escutar as vozes de mães que mandam seus filhos entrarem para tomar banho ou fazer outra obrigação. A infância local protesta porque vê ali o fim de mais um dia de criativas brincadeiras. Não será, contudo, apenas uma vez que as mães avisarão que a hora de voltar para casa já passou. As crianças teimam em ficar mais um tempo aproveitando os banhos roubados dos hidrantes abertos, para se refrescarem no verão de Manhattan.

Durante os meses de férias, as ruas ficam plenas de vozes, de todas as idades e gêneros, até altas horas. Logo cedo, é possível escutar os gritos das crianças que já estão nas ruas com suas bicicletas, bolas ou, exclusivamente, com seus corpos, inventando jogos já brincados por outras infâncias de tantos países. Amarelinha, pique-pega, queimada. Eu não faço a menor ideia de quais sejam os nomes desses jogos em inglês ou espanhol, mas eu os reconheço.

Para aproveitar melhor este espetáculo, pego um livro e vou para uma pequena praça atrás do meu prédio. Finjo a leitura para melhor observá-los tecendo fantasias, negociando jogos inventados em segundos. Enquanto brincam, é possível escutar a próxima geração de nova-iorquinos jogando com a língua.

Com que facilidade eles mudam o registro das línguas! Respondem às mães em espanhol, se agridem em espanhol e, uma vez ou outra, emitem frases inteiras em inglês. Essa mistura está ausente entre dominicanos mais velhos.

Algumas vezes, eu os provocava com um suposto elogio:

-Mas você vive aqui há tantos anos... ora, você já é americana.

A resposta não mudava:

- Não. Eu sou dominicana!

 

 
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