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A esfera semâtica

 

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A esfera semântica: Computação, cognição, economia da informação
Pierre Lévy
Formato 14x21 cm, 522 páginas
ISBN 978-85-391-0630-1
O meio digital nos oferece atualmente um ambiente de comunicação global, ubíquo e participativo que mobiliza uma capacidade de memória sem precedentes. Como explorar este novo meio para aumentar o processo de cognição social e dirigir o desenvolvimento humano? Combinando ciências humanas tradicionais com informática e ciências cognitivas, este livro expõe a construção colaborativa de um Hipercórtex global coordenada por uma metalinguagem computacional.
Esfera semântica é um sistema de coordenadas matemáticas e linguísticas do espírito com base na metalinguagem IEML. Ao reconhecer plenamente a natureza simbólica e social da cognição humana, podemos transformar o nosso atual cérebro global opaco em uma inteligência coletiva reflexiva.

 

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CAPÍTULO 1

 

INTRODUÇÃO GERAL

 

Uma memória digital participativa comum ao conjunto da humanidade está em vias de constituição. Mas no início do séc. XXI, a exploração dessa memória por todos e por cada um é limitada por problemas de opacidade semântica, de incompatibilidade dos sistemas de classificação e de fragmentação linguística e cultural. Na ausência de modelos computáveis, nós não conseguimos automatizar a maior parte das operações cognitivas de análise, de filtragem, de síntese e de interconexão das informações que permitiriam utilizar vantajosamente a imensa massa de dados que se nos oferecem. Nós não sabemos ainda como transformar sistematicamente esse oceano de dados em conhecimento e ainda menos como transformar o meio digital em observatório reflexivo de nossas inteligências coletivas. A primeira finalidade desta obra é apresentar à comunidade científica e ao público avisado um novo sistema de codificação das significações, graças ao qual as operações sobre o sentido na nova memória digital poderiam se tornar transparentes, inter-operáveis e computáveis. Esse sistema de codificação semântica foi batizado a IEML (Information Economy Meta Language em inglês ou metalinguagem da economia da informação em português). O seu uso poderia contribuir para suprimir os obstáculos que hoje limitam a exploração ideal do meio digital em benefício do desenvolvimento humano em suas dimensões indissociavelmente sociais e pessoais. Se uma comunidade dinâmica de semanticistas e de lingüistas enriquecesse essa linguagem e a fizesse crescer, se um grupo de engenheiros programasse e mantivesse uma coleção de programas explorando as possibilidades computacionais da IEML e se uma massa crítica de utilizadores e de mídias sociais se apropriasse desses programas, eu considero que nós nos engajaríamos em uma nova via científica, técnica e cultural que a longo prazo levaria a um aumento significativo dos processos cognitivos humanos.

 

Neste livro, eu demonstro que nenhuma razão de ordem científica, técnica ou ética proíbe o uso em larga escala de um sistema simbólico calculável do tipo da IEML. Assim como existe em matemática teoremas de impossibilidade (cujo mais célebre é sem dúvida o de Gödel), eu creio ter fornecido nesta obra a prova matemática, acompanhada de sólidos argumentos técnicos e filosóficos, de que uma nova possibilidade (não percebida pelas gerações precedentes) a partir de agora se abre ao espírito humano.

 

IEML é a priori uma linguagem formal como tantas existentes hoje. A sua originalidade e o seu valor derivam do fato de que cada uma das suas expressões válidas modaliza um circuito semântico próprio que canaliza fluxos de informação. A esfera semântica IEML é o imenso grafo coerente e calculável que conecta o conjunto desses circuitos e que pode então servir de sistema de coordenadas à memória digital comum em vias de constituição.

 

Esta introdução geral se organiza em três grandes seções. A primeira apresenta a visão coerente que se cristalizou progressivamente durante os longos anos que eu consagrei à construção da IEML. A segunda narra em primeira pessoa o caminho da descoberta, a aventura intelectual que levou à elaboração completa da metalinguagem. Finalmente, a terceira seção resume o fruto dessa aventura – um resultado que, a meu ver, supera limitações à minha visão.

 

1.1. Visão: aumentar os processos cognitivos

Ao conceber a esfera semântica IEML, eu respondi a três limitações estreitamente interdependentes: um imperativo propriamente semântico, um imperativo ético e um imperativo técnico.

 

1.1.1. O imperativo semântico

A finalidade imediata da IEML é resolver o problema de inter-operabilidade semântica – o “caos digital” – que se origina da multiplicidade de línguas naturais, de sistemas de classificação e de ontologias. IEML funciona como uma “linguagem pivô”, um sistema de destinação dos conceitos capaz de diferentes sistemas de categorização e de organização dos dados, que de outro modo permaneceriam incompatíveis. Eu sei perfeitamente que a idéia mesma de um sistema universal de codificação do sentido pode evocar os piores fantasmas totalitários, ou ao menos a ameaça de um possível empobrecimento da diversidade das significações. Então, eu gostaria de lembrar que a codificação digital do som e o uso de formatos de arquivos universais para a gravação da música não uniformizou absolutamente as mensagens musicais mas, muito pelo contrário, contribuiu para aumentar a diversidade das produções, das variações, das mixagens, das trocas e das explorações no universal musical. Da mesma maneira, longe de uniformizar o mundo dos ícones, a codificação digital das imagens por meio de pixels favoreceu a produção assistida, a manipulação automatizada e a criação aberta e distribuída de imagens de todos os tipos. Finalmente, a codificação digital dos caracteres da escrita está na base de todos os sistemas de tratamento de texto e ninguém afirma que esses programas de tratamento de texto alguma vez limitaram a liberdade de escrever. Graças a um dicionário colaborativo aberto, a um jogo de operações fundamentais recombináveis e a um grupo de transformações praticamente infinito, a codificação IEML deveria fazer aparecer toda significação determinada como um momento no interior de todo um leque de ciclos de transformações, como se fosse um em uma multiplicidade de redes ou uma figura que só aparece como tal sobre um fundo explorável ao infinito. Isso quer dizer que um conceito na esfera semântica terá o efeito de abrir os seus horizontes, mais do que de fechá-los.

 

A esfera semântica IEML é um protocolo intelectual para reduzir as possibilidades de diálogo interpretativo em torno de uma memória digital comum. E o diálogo ao qual eu me refiro deve ser aqui compreendido como trans-lingüístico, trans-cultural, trans-religioso, trans-partidário, trans-disciplinar e trans-institucional. Por isso, a topologia semântica aberta pela metalinguagem IEML considera o conjunto dos pontos de vista práticos, ontológicos ou filosóficos como bem-vindos e igualmente legítimos. A única atitude que é proibida por esse perspectivismo generalizado é a negação da legitimidade do ponto de vista do outro, a recusa obstinada do diálogo, o fechamento hermenêutico.

 

Na medida em que ele visa à instituição de um espaço acolhendo no mesmo sistema de coordenadas uma capacidade de produção de sentidos virtualmente infinita em sua diversidade, o imperativo semântico obriga essencialmente à máxima abertura multi-direcional. Por isso, não é necessário aderir aos princípios filosóficos que inspiraram a criação da IEML para utilizá-lo para os seus próprios fins ou para se beneficiar do aumento das possibilidades pessoais e coletivas de criação e de gestão de conhecimentos que a esfera semântica propõe. Atenção, eu não afirmo que todas as arquiteturas semânticas que poderão ser construídas em IEML se equivalham de fato, nem que cada um deva aceitar por si mesmo a perspectiva do outro. O imperativo semântico supõe apenas os dois princípios dialéticos elementares segundo os quais, primeiramente, todas as interpretações se equivalham de direito e, em segundo lugar, cada um deve aceitar o direito do outro de sustentar um ponto de vista diferente do seu. De fato, os indivíduos e as comunidades que decidirão utilizar a IEML poderão ter finalidades, objetivos, tamanhos e graus de transversalidade disciplinar ou cultural tão variados quanto quiserem. Somente os especialistas da engenharia semântica deverão estar unidos por uma missão comum: manter e estender a eqüanimidade hermenêutica da esfera semântica.



Grosso modo, um pixel é um conjunto de cinco números: posição na abscissa, posição ordenada, quantidade de azul, quantidade de vermelho, quantidade de verde.

A hermenêutica é a arte da interpretação. O fechamento hermenêutico (por oposição à abertura hermenêutica) deve ser aqui compreendido como a exclusão a priori dos outros, interpretação em benefício do “único verdadeiro sentido” de um evento, de um fenômeno ou de um texto em geral.

Pierre Lévy

 

 
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