• banner_gabriella_de_laurentiis
  • banner_andre_lepecki_3
  • banner_carin_zwilling_2
  • banner_carla_cristina_2
Home Redes Digitais
André Lemos

a_comunicao_das_coisas

A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura

André Lemos
Formato 14x21 cm, 310 páginas
ISBN 978-85-391-0596-0
O objetivo deste livro é discutir a cultura digital e as novas mídias a partir da Teoria Ator-Rede (TAR). O livro apresenta aspectos teóricos e exemplos práticos, sendo composto por seis capítulos e uma entrevista com o sociólogo francês Bruno Latour, o mais importante nome da TAR. O leitor vai encontrar temas atuais analisados pela ótica dessa teoria, tais como as mídias locativas, a “internet das coisas”, os dispositivos de leitura eletrônicos, como tablets e e-readers, as redes sociais, o ciberativismo, o jornalismo, entre outros. O livro, escrito por um dos mais importantes estudiosos da cultura digital no Brasil, pode ser útil para estudantes e pesquisadores em sociologia, filosofia, comunicação, geografia, arquitetura e urbanismo, informática e áreas afins.

Onde estão os Mounier das máquinas, os Lévinas dos animais, os Ricoeurs dos fatos? O humano, como podemos compreender agora, só pode ser captado e preservado se devolvermos a ele esta outra metade de si mesmo, a parte das coisas. Enquanto o humanismo for feito por contraste com o objeto abandonado à epistemologia, não compreenderemos nem o humano, nem o não-humano.
Bruno Latour (1994a, p. 134

Humanos comunicam. E as coisas também. E nos comunicamos com as coisas e elas nos fazem fazer coisas, queiramos ou não. E fazemos as coisas fazerem coisas para nós e para outras coisas. É assim desde o surgimento do humano no planeta. Na cultura contemporânea, mediadores não-humanos (objetos inteligentes, computadores, servidores, redes telemáticas, smart phones, sensores etc.), nos fazem fazer (nós, humanos), muitas coisas, provocando mudanças em nosso comportamento no dia-a-dia e também, em contrapartida, recursivamente, mudamos esses não-humanos de acordo com as nossas necessidades. O que eles, os não-humanos, nos fazem fazer, ganham, a cada dia, não só uma maior abrangência, invadindo todas as áreas da vida quotidiana, como também maior poder prescritivo, indicando e nos fazendo fazer coisas em um futuro próximo. Eles nos induzem a coisas que não podemos deixar de fazer, aqui e agora, acolá e depois. Não vivemos sem eles.

O leitor atento, aquele que não se deixou levar pela história do sujeito que domina o objeto, do sujeito senhor da situação e do objeto sempre passivo e subserviente, pode arguir que isso é assim desde sempre, que nossa relação com a técnica, esse modo de fazer coisas, e com os artefatos, essas coisas feitas por nós, é sempre de trocas, de mediação, de delegação, de inscrição, de tensão. Que ela é sempre comunicação. Certamente. Mas nem todo mundo pensa assim. Hoje, mais do que em outras eras da história da humanidade, essa comunicação é mais intensa. Cada vez mais não-humanos, agora “inteligentes, comunicativos, conectados e sensíveis ao ambiente” (smarts, no jargão técnico) nos fazem fazer coisas, alteram a nossa forma de pensar e de agir em todos os domínios da cultura (família, trabalho, escola, lazer...). Vou mostrar neste livro sentidos dessa comunicação das coisas em algumas áreas da cultura digital pelo caminho proposto pela Teoria Ator-Rede (TAR).

Para quem ainda não está convencido das transformações da cultura digital, é recomendável parar e pensar um pouco nas suas ações diárias: você acorda e pega logo o celular, vê se ele te avisa de algo, uma ligação perdida, um SMS, um alarme da agenda… Se ele não te manda fazer nada, você checa os e-mails enquanto toma café, vê que vai ter que alterar a agenda e desfazer um compromisso. Liga o tablet, lê as informações pelos serviços de informações criados por algoritmos agregadores (e não por humanos) como Google Reader, Feedly, Flipboard, entre outros, ou baixa os jornais e revistas eletrônicos no seu e-reader e, da leitura, replica algumas das informações nas redes sociais cujos serviços, vão, automaticamente, fazer chegar essas notícias aos seus contatos (Twitter, Facebook, Pinterest...). Depois, aproveita o embalo e vai se inteirar da vida dos amigos próximos (e dos nem tão próximos) no Facebook ou no Instagram e, antes de sair de casa com o carro, ou para pegar o transporte público, lança o aplicativo Waze para ver as condições do trânsito, mudando a rota, se necessário.

Muitas pessoas fazem isso diariamente. E vejam que nem estou falando da atual fase das máquinas se comunicando com outras máquinas (M2M, no jargão técnico) de forma autônoma em uma “Internet das Coisas” (como veremos no capítulo seis): objetos hiperconectados em redes (via protocolo IPV6) com sensores e etiquetas de radiofrequência que estão ampliando a mediação e a delegação dessa comunicação das coisas a um nível só pensado na ficção-científica: o carro comunicando com o celular avisando da revisão; a agenda checando a situação do vôo e mudando o horário do despertador para adequá-lo à nova situação; a xícara, vazia, pedindo mais café para a cafeteira que, sem pó, passa a comanda ao supermercado para comprar café; a torradeira pedindo atenção; a árvore falando sobre a situação ambiental; o lixo mostrando se ele foi jogado ou não onde deveria; remédios avisando ao paciente a hora de tomar a outra dose prescrita pelo médico... Os exemplos estão em expansão. Com essas coisas ainda mais inteligentes, as redes de “objetos não-humanos”, delegando coisas a outros “objetos não-humanos”, só farão aumentar a mediação da ação de nós, humanos. A comunicação das coisas entre elas e entre nós, os humanos, só aumenta.

A mediação com não-humanos é parte constitutiva do humano, mas a “Constituição” da modernidade tentou nos fazer esquecer isso, insistindo na separação e na purificação dos híbridos em “sujeitos e objetos” (Latour, 1994a). Na comunicação, esse parece ser um dos seus dogmas: o sujeito de um lado, as mídias do outro, contaminando a “verdadeira” relação com o mundo (que seria a não mediada). A comunicação com C maiúsculo seria a ação que se dá na “troca entre consciências”. E como os objetos não têm consciência, a comunicação seria assunto apenas de humanos. A mediação certamente é entre humanos e não-humanos, mas ela é purificada, separando um do outro e instituindo campos de saberes, campos políticos: a comunicação dos humanos de um lado e os objetos inertes de outro.

Na comunicação, a mediação, longe de ser neutra, está inserida na materialidade dos dispositivos, na constituição do seu design, no desdobramento das redes que dão apoio. Longe de ser neutra, como afirma David Banks (2013):

Technological systems and artifacts have politics, and communications technologies are particularly interesting in this regard. They can be designed to decentralize organizations and resources, or they can require the continued existence of large bureaucracies. Communications technologies are politics frozen in silicon. Not only because these systems mediate our relationships at multiple scales, but also because looking at what is not there says a lot about who is and is not allowed to politically organize. Again, this isn’t about the intentions of engineers or designers per se, rather the technologies are imperfect and incomplete physical manifestations of the current political order.
Ora, a mediação dos artefatos digitais é hoje parte intrínseca do nosso quotidiano. Retire esses objetos do seu quotidiano e veja se ele ainda faz sentido. Claro, esses usos de artefatos digitais conectados a redes telemáticas podem ocorrer em maior ou menor grau, a depender do indivíduo, da cidade, do país, mas, de qualquer maneira, estamos sempre fazendo coisas que outros agentes (que vamos chamar mais adiante de “actantes”) nos fazem fazer e dos quais dependemos completamente: o carro, o transporte público, o rádio, a TV, os jornais, o telefone, a eletricidade, as redes de água e esgoto, as leis, as normas…

Como podemos pensar o humano independente dessas redes sociotécnicas? Como podemos pensar em algum momento no “sócio”, na comunicação e no “técnico” como partes separadas, como domínios autônomos? Se olharmos o nosso mundo (o que está mesmo ao nosso redor), só vemos híbridos criados por contínuas mediações, delegações, inscrições de uns (humanos ou não-humanos) nos outros (não-humanos ou humanos) produzindo redes e associações. Tudo está nesse movimento. Como afirma Latour (1994a, p. 136) se referindo ao “humano”:

Como ele poderia ser ameaçado pelas máquinas? Ele as criou, transportou-se nelas, repartiu nos membros das máquinas seus próprios membros, construiu seu próprio corpo com elas. Como poderia ser ameaçado pelos objetos? Todos eles foram quase-sujeitos circulando no coletivo que traçavam. Ele é feito destes objetos, tanto quanto estes são feitos dele. Foi multiplicando as coisas que ele definiu a si mesmo.

É isso a vida social. Ou o social, como objeto exterior, estaria separado de tudo, sendo a causa da técnica, da cultura, da economia, da religião? Precisamos de uma teoria do social que possa pensar essas relações e esses mediadores sem colocar, de antemão, os humanos no centro da intencionalidade, sem purificar a comunicação separando sujeito de objeto como mediadores e intermediários. Assim sendo, para compreendermos a complexidade da cultura digital, torna-se imperativo ir além da separação entre sujeitos autônomos e objetos inertes, passivos e obedientes, simples intermediários. Eles são também mediadores e a mídia é mais do que uma externalidade do humano, uma extensão do homem. Ela é parte da rede que o constitui. Na expressão “ator-rede”, o ator não é o indivíduo e a rede não é a sociedade. O ator é rede e a rede é um ator, ambos são mediadores em uma associação.

Acredito que para a área de comunicação e para os estudos da cibercultura no Brasil a presença de uma teoria que pense os mediadores sem dar muitos privilégios aos atores sociais clássicos (os sujeitos) pode ser bastante estimulante. Uma teoria que busca nivelar topologicamente sujeitos e objetos, atores humanos e não-humanos, que descreve e destaca as controvérsias buscando abrir “caixas-pretas” (clichês, estereótipos, lugares-comuns, enunciados e objetos estabilizados) me parece bem apropriada para pensar a cultura digital hoje. Como, em uma área como a da comunicação, na qual tudo é mediado por artefatos tecnológicos sofisticados, não dar atenção aos híbridos? Essa teoria é a Teoria Ator-Rede (TAR).

Pensamentos por estrutura (macro), agência (micro), hermenêutica ou contexto (local, global) não dão conta da complexidade da cultura contemporânea, embora, devamos reconhecer, tenham dado contribuições interessantes para o conhecimento do “social”.  Cada ação, para ficarmos no uso das tecnologias de comunicação e informação, por mais simples que seja, associa múltiplos atores em uma circulação de mediações e delegações atravessando espaços e contextos: engenheiros, criadores, produtores de informação, empresas, distribuidores, usuários, leis, software e bancos de dados, servidores, redes... Compreender a cultura digital é entender a relações entre esses diversos atores e suas formas de relação através de boas descrições e análises de seus rastros. Ou seja, pensar além das supostas essências e estruturas pode ser muito mais produtivo para o entendimento das particularidades associadas ao mundo contemporâneo.

O pensamento mais simples e geral leva a determinadas afirmações que em nada revelam das lógicas das mediações e da constituição do social. A internet emancipa ou é totalitária? O Facebook é lugar do narcisismo e da superficialidade, ou de informações e confissões? O Twitter é pura emulação de pensamentos imperfeitos ou ferramenta revolucionária? Ora, eles não são nem uma coisa nem outra, podendo ser uma coisa ou outra a depender da associação em jogo. E tudo depende também do momento e do lugar. Se partimos para essências e estruturas perdemos as associações (o social que de fato está se fazendo) e as redes que aí se formam. Olhar para além das essências pode revelar as particularidades das ações que são irredutíveis a outras no espaço e no tempo. A crítica e o eufemismo, baseados nas essências e nas análises das estruturas nos deixam sempre com a sensação de que a “verdade” não foi dita, de que está sempre faltando algo. Certamente Morozov está errado. E Johnson também!

A TAR é interessante, pois ela busca identificar justamente as associações entre atores, vistos como mediadores ou intermediários, destacando as redes que se formam com a circulação da ação entre eles, entendendo as estabilizações, ou caixas-pretas que daí se formam como algo momentâneo. Ela abandona o pensar em macroestruturas já que essas só aparecem, se aparecerem, a posteriori. Essência e estrutura não são aqui explicações causais.

Nesse sentido, ela é uma sociologia da mobilidade (já que de fato tudo está a ser refeito, remontado, reagrupado) que busca descrever e analisar os entrelaçamentos em via de se fazer, a circulação da agência antes das estabilizações, compreendendo os atores (humanos e não-humanos) neles mesmos como mônadas, redes, eventos dinâmicos. Esses eventos, mediações, inscrições e delegações são analisados e descritos em suas controvérsias, momentos polêmicos em que as associações estão se fazendo e que o “social” pode aparecer e mostrar as suas facetas (ética, moral, política, cultural, econômica, científica, tecnológica...).

Em uma área tão dinâmica como a cultura digital e a comunicação, como não se interessar por esse tipo de aporte teórico-metodológico? A cultura digital é, certamente, um ambiente propício a controvérsias, justamente por sua dinâmica e relação com o rápido desenvolvimento tecnológico contemporâneo. A TAR pode nos ajudar a compreender as relações que se estabelecem e que criam a sociedade. Por exemplo, o uso das mídias sociais como o Facebook e o Twitter, e dos telefones celulares não mostraria muito das questões culturais, econômicas, comunicacionais e políticas no Brasil? Questões referentes à subjetividade, à política, à educação, ao jornalismo, à privacidade, ao anonimato, ao automatismo e independência dos objetos estão na ordem do dia. Não podemos aprisionar esses objetos em estruturas que matariam exatamente o movimento de suas relações. Esse é o ensinamento da TAR: estabelecer frames a priori é exatamente abdicar de prestar atenção àquilo que circula, às mediações em andamento, às associações se fazendo, ao social sendo permanentemente reconstruído.

Para os estudos de cibercultura, a TAR pode ajudar a revelar fenômenos tão dispares quanto a sociabilidade on-line, a vigilância dos rastros digitais deixados em diversas ações na internet, as mídias locativas, o corpo e a subjetividade, as interfaces e interações, a arte, o ciberativismo, o governo eletrônico, os games, a inclusão digital... Precisamos discutir esses assuntos, se posso dizer assim, por dentro, e abrir as caixas-pretas da cultura digital. Partir dessa abordagem realista, relativista e construtivista dos fenômenos sociais pode ser um bom caminho. É importante redefinir a sociologia como uma ciência do movimento dos objetos (humanos e não-humanos) em circulação e associação. O trabalho é menos de se prender entre uma visão do micro ou do macro, mas de seguir os rastros. E para Latour, “it is possible to remain faithful to the original institutions of social sciences by redefining sociology not as the ‘science of the social’, but as the tracing of associations” (Latour, 2005a, p. 4-5).


* * *

Tenho pesquisado a cultura digital em sua nova fase. Temas como espaço urbano inteligente, tecnologias da mobilidade, mídias de geolocalização e internet das coisas me parecem objetos que clamam por uma análise de tipo “ator-rede”. Alguns colegas no Brasil têm se dedicado a essa teoria também em estudos sobre vigilância, monitoramento de mídias digitais, pós-humano, arte eletrônica... Passamos por um momento bem interessante no país no qual a TAR desperta interesse crescente. Isso pode ser comprovado no número cada vez maior de citações nos principais encontros na área de comunicação como a Compós, a Intercom, o Simsocial e a Abciber, para apontar apenas os mais importantes. Não poderia ser diferente, já que estamos imersos em uma cultura onde dispositivos eletrônicos e redes telemáticas se fazem presentes de forma cada vez mais intensa. O Brasil é um dos países que mais utilizam esses dispositivos, mesmo tendo que enfrentar enormes desafios de infraestrutura, desigualdade social e problemas na democratização do acesso aos novos meios de comunicação.

Desde 2006 tenho discutido a TAR no Lab404 - Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea da Faculdade de Comunicação (PPGCCC) da UFBA, com pesquisadores de iniciação científica, mestrandos e doutorandos. Tenho me esforçado em fazer com que os alunos de outras áreas e linhas de pesquisa se interessem pelo tema, ministrando disciplinas tanto na graduação quanto na pós-graduação. Recentemente ofereci uma disciplina sobre cartografia de controvérsias para alunos de graduação (explico mais adiante a experiência) e começo, nesse segundo semestre de 2013 (no momento em que finalizo este livro), outra, obrigatória, sobre “TAR e teorias da comunicação”, para os alunos do PPGCCC da UFBA. Tenho orientado trabalhos de mestrado, doutorado e conclusão de curso de graduação sobre diversos aspectos da cultura digital sob essa ótica. Criei, em 2012, um grupo de discussão sobre o assunto no Facebook, o CyberANT.

O objetivo deste livro é suprir uma lacuna como um trabalho de introdução à TAR no campo da comunicação no Brasil, podendo, desta forma, servir de base para futuros trabalhos. Com esta finalidade, apresento alguns aspectos teóricos e exemplos práticos para ilustrar o tema e discutir a teoria. Exponho aqui temas atuais como as mídias locativas, o carro automático do Google, a internet das coisas, os tablets e e-readers, as revoluções e as redes sociais, entre outros. A preocupação foi explorar conjuntamente os principais aspectos teóricos e práticos a partir da analise de fenômenos atuais.

Os capítulos são oferecidos ao leitor com o intuito de estimular o pensamento e o uso dessa sociologia das associações em fenômenos da cibercultura. Assim, ele deve ser visto como um livro introdutório à teoria a partir do qual outros pesquisadores podem tirar proveito das discussões aqui feitas e tentar aplicá-las às suas áreas de interesse. O livro tem por base alguns artigos e ensaios que publiquei em livros e jornais acadêmicos nacionais e internacionais entre 2010 e 2013 sobre mídia, comunicação, cibercultura e TAR. Os artigos foram reescritos e reorganizados para este trabalho a fim de manter uma coerência e uma fluidez maior na leitura.

O livro está divido em seis capítulos e termina com uma entrevista com Bruno Latour, o mais importante nome da TAR. No primeiro capítulo apresento a teoria, sua história e principais conceitos. Aponto a sua importância para a área da comunicação e, mais especificamente, para os estudos sobre as novas mídias. Apresento (em texto escrito em parceria com André Holanda), sete contribuições da TAR para os estudos em comunicação. Centramos nossa análise na discussão sobre o jornalismo e mostramos como a teoria pode ser uma boa forma de compreensão de seus desafios teóricos. O capítulo termina com a perspectiva “pós-TAR” apontada por Latour (2012a) em seu último livro / projeto: a enquete sobre os “modos de existência”.

O segundo capítulo discorre sobre a cartografia de controvérsias. Esse tema é descrito como uma forma de aplicação prática da TAR. Ofereço exemplos concretos e sintéticos em casos específicos, como a controvérsia sobre a ação de gandulas em jogos de futebol no Brasil, sobre o carro do Google que dirige sozinho, sobre as organizações vistas como caixas-pretas e sobre o caso do segredo e do vazamento de informações pelo site Wikileaks. O intuito aqui é mostrar como a TAR pode ser aplicada a fenômenos do campo comunicação em geral, e da cibercultura em particular.

O terceiro e quarto capítulos são respectivamente sobre dispositivos de leitura e mídias sociais. O objetivo do capítulo três é discutir a materialidade da comunicação e as principais mudanças nos dispositivos de leitura. Proponho uma análise particular do caso dos tablets e e-readers. O quarto capítulo traz uma discussão sobre a máxima mcluhaniana de que “a mídia é uma extensão do homem”, exemplificando a partir do uso das mídias sociais durante a revolução conhecida como Primavera Árabe, em 2012. No momento em que finalizo esse livro, estamos assistindo, aqui no Brasil, a exibição da força das mídias sociais (Facebook e Twitter, principalmente, mas também YouTube, blogs, SMS) como agentes mobilizadores das ações que tomam, em junho de 2013, as ruas das principais cidades do país.

O quinto capítulo versa sobre o tema das mídias e os processos de espacialização. A partir de uma abordagem mais filosófica, discuto a dimensão espacial, compreendendo-a como rede e movimento. Apresento as novas mídias de geolocalização, conhecidas também como mídias locativas, mostrando suas principais características. A seguir, faço uma discussão sobre as cidades e os mapeamentos colaborativos (em texto inédito escrito em parceria com Paulo Victor Sousa). O objetivo aqui é mostrar como a TAR pode nos ajudar a compreender o fenômeno atual da emergência das mídias de geolocalização e discutir a noção de espaço e os “processos de espacialização” em jogo com as mídias digitais.

O sexto capítulo discute o novo campo de expansão da cultura digital que é a “Internet das Coisas” (IoT). Nesse capítulo, discuto a Ontologia Orientada a Objeto (OOO), proposta por Graham Harman e mostro como a TAR permite politizar as coisas em meio a processos autônomos em rede. Mostramos como os objetos passam a ter novas funções “infocomunicacionais” e que essas novas funções vão modificar as formas de associação entre humanos e não-humanos gerando questões importantes como vigilância, controle, monitoramento, automatismo de processos e gestão do urbano.

Por fim, fecho o livro com a entrevista feita em agosto de 2012 com Bruno Latour em Salvador (com a participação de André Holanda), quando de sua conferência no seminário internacional “A Vida Secreta dos Objetos”. A entrevista retoma muito do que Latour (2012a) propõe atualmente em sua “enquete sobre os modos de existência”. Ele discute a relação entre humanos e não-humanos, redimensiona o seu pensamento sobre a questão da potência, fala sobre processos emergentes e sustenta a ideia de que a noção de rede é boa para acesso aos diversos “terrenos” de pesquisa, mas que não ajuda muito a valorizar as associações.

A minha motivação em publicar esse livro veio de conversas com alunos e colegas da área de comunicação. Muitos me diziam que a teoria é muito interessante, mas que gostariam de ver aplicações práticas no campo da comunicação. Acredito que esse livro possa ser uma porta de entrada e um estímulo, já que apresentamos alguns exemplos que, mesmo sendo ainda preliminares, já apontam para a potencialidade e a utilidade dessa teoria. Longe de mim a ideia de esgotar a difícil e complexa rede de contribuições que constitui essa teoria e os seus novos desdobramentos, com os “modos de existência” (Latour, 2012a). O objetivo aqui é bem mais modesto: um exercício de pensar a TAR aplicada a fenômenos de teorias da comunicação, particularmente em sua interface com a cultura digital contemporânea.

 
^ Top ^