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Marx selvagem

capa_-_jean_tible

Marx Selvagem

Jean Tible
Formato 16x23 cm, 228 páginas
ISBN 978-85-391-0572-4


Por que ler Marx agora? E, ainda por cima, por que ler Marx Selvagem?Conheço o texto desde que ele começou a ser gestado e sempre me impressionou sua crescente atualidade. Assim, meu primeiro impulso é dizer que precisamos ler o livro de Jean Tible porque somos brasileiros, porque somos latino-americanos, porque estamos vivendo um momento singular e uma conjuntura única na América Latina. É quando aprendemos a deixar de dizer "Si, señor" para os antigos senhores de dentro e de fora do continente, que nos colonizaram durante cinco séculos. Agora não é mais só a minúscula Cuba que ousa levantar a voz. Em toda parte, no Equador, na Venezuela, na Bolívia, e last but not least no Brasil, multiplicam-se as experiências coletivas nas quais se afirma a vontade de autonomia.
Marx Selvagem tem tudo a ver com isso, é ao mesmo tempo um reflexo do e uma reflexão sobre o acontecimento latino-americano. Jean Tible foi reler o filósofo que decifrou o enigma do capitalismo, em busca do modo como surgiu e se desenvolveu em seu pensamento uma relação positiva com os povos selvagens do passado e do presente. Havia mais do que simpatia. Havia um interesse genuíno pelo modo como pensavam a questão do coletivo e como se norteavam por outros valores que não a onipresente mercadoria e seu fetiche.
Acompanhando a evolução do pensamento de Marx sobre a matéria, iluminamos de um modo diferente a aventura política latino-americana contemporânea. Trata-se do mesmo velho Marx? Sim e não. Marx continua incontornável, como bem assinalou Michel Foucault. Mas Marx Selvagem é uma novidade que tem tudo a ver conosco. (Laymert Garcia dos Santos)

 


PREFÁCIO

A Marx Selvagem

 

Este ensaio é um trabalho importante, original e instigante. Jean Tible não só domina perfeitamente toda a literatura sobre a questão – Theodor Shanin, Kevin Anderson, Lawrence Krader, Maximilien Rubel, Miguel Abensour, etc –, mas apresenta aspectos novos da discussão, buscando confrontar Marx com a América indígena. Partindo das reflexões de José Carlos Mariategui – o primeiro encontro do marxismo e do indigenismo – sobre o ‘comunismo inca’,  e sobre as tradições comunitárias indígenas, ele nos faz descobrir um ‘Marx selvagem’. Isto é, um Marx e Engels interessados, graças a suas leituras de Lewis Morgan, Joahnn Bachofen, Georg Maurer e outros, pelo ‘comunismo primitivo’, pela Confederação dos Iroqueses e pela comuna rural russa. Se trata, eu diria, de um Marx ‘romântico’ – que escapa dos limites estreitos das ortodoxias marxistas posteriories –, um Marx que se refere às formações sociais ‘arcaicas’, pré-modernas, para criticar a deshumanidade do capitalismo e para pensar um futuro comunista. A análise da evolução de Marx, a partir de posições eurocêntricas, em direção a uma crescente abertura ao ‘Outro’, me parece bastante convincente. Igualmente interessante, e muito inovadora, é a comparação entre Clastres e Marx, buscando a convergências, mas sem ocultar as óbvias diferenças. Existe com efeito, como bem aponta Miguel Abensour, um ‘Marx libertário’: um fio condutor anti-estatista atravessa sua obra, desde a crítica à filosofia do direito de Hegel, em 1843, até os escritos sobre a Comuna de Paris, de 1871. Mas até agora não se havia tentado confrontar esta dimensão do pensamento marxiano com a antropologia anarquista de Clastres.

 

Acho as colocações do Davi Kopenawa, inspiradas por sua experiência de luta, muito dignas e sugestivas. Mas confesso que sou bastante cético em relação às especulações do senhor Viveiros de Castro e seu ‘perspectivismo conceitual amazônico’. As críticas que avança Jean Tible ao eurocentrismo dos primeiros escritos de Marx são interessantes, mas os ataques a Marx de Viveiros de Castro me parecem fora de foco e pouco pertinentes…

 

Ficou faltando uma discussão mais aprofundada da questão ecológica, a relação indígena com a natureza como paradigma ecológico alternativo ao capitalismo; neste contexto, as lutas indígenas contra o agro-negócio, as multinacionais minenadoras, etc, são exemplos importantíssimos de movimentos socioecológicos anticapitalistas. As comunidades indígenas no Brasil e na América Latina se encontram na primeira linha da luta em defesa da Natureza.  Não só por suas mobilizações locais para proteger os rios e as florestas, contra os projetos faraônicos dos Estados (Belo Monte!) e contra a intervenção ecocida das multinacionais petroleiras e minenadoras, mas também por sua proposta de um modo de vida alternativo ao capitalismo neoliberal globalizado: o Sumak Kawsay (Viver Bem). Estas lutas são antes de tudo indígenas, mas elas se desenvolvem frequentemente em aliança com os camponeses sem terra, os ecologistas, os socialistas, as comunidades de base cristãs, com o apoio de sindicatos, partidos de esquerda, pastorais da terra e pastorais indígenas da Igreja.

 

A dinâmica expansiva do capital exige a transformação em mercadoria de todos os bens comuns naturais, o que conduz, com uma rapidez crscente, à destruição do meio ambiente. As zonas petroleiras da América Latina, abandonadas por multinacionais depois de anos de exploração, são envenenadas e poluídas, deixando uma triste herança de doenças entre os habitantes. É, portanto, perfeitamente compreensivel que as populações indígenas, que vivem  em contato direto com a Natureza, serem as primeiras vítimas deste ecocídios, e tentarem se opor, às vezes com sucesso, à expansão destruidora do capital.

 

Estas resistências indígenas têm motivações muito concretas e imediatas – salvar suas florestas ou suas fontes de água – em um batalha pela sobrevivência.  Mas elas correspondem também a um antagonismo profundo entre a cultura, o modo de vida, a espiritualidade e os valores destas comunidades, e o ‘espírito do capitalismo’ tal como o definiram Karl Marx e Max Weber: a submissão de toda atividade ao cálculo do lucro, a rentabilidade como único critério, a quantificação e reificação (Versachlichung) de todas as relações sociais. Entre a ética indígena e o espírito do capitalismo existe uma espécie de ‘afinidade negativa’ – o contrario da afinidade eletiva de que falava Weber entre a ética protestante calvinista e o espírito do capitalismo –, uma oposição sociocultural profunda. Certo, podemos encontrar comunidades indígenas, ou mestiças, que se adaptam ao sistema, e tentam utilizá-lo em seu proveito. Mas temos de reconhecer que sempre existiu, e nas últimas décadas mais do que nunca, uma série ininterrupta de conflitos entre as populações indígenas e as empresas agrícolas ou mineradoras do capitalismo moderno.

 

O belo livro de Jean Tible nos permite entender, à luz de Marx e de José Carlos Mariategui, as razões deste conflito permanente.

 

Michael Löwy

(Sociólogo e diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique)

 

 
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