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A odisseia de Platão
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A Odisseia de Platão: as aventuras e desventuras da dialética
Hector Benoit
Formato: 15x22,5 cm, 564 páginas
ISBN: 978-85-391-0872-5

 

Em um estudo de fôlego literalmente homérico, Hector Benoit se propõe a reorganizar as folhas espalhadas pelos ventos de séculos de interpretação da obra platônica, recontando o percurso dos diálogos platônicos na ordem em que foram postos fenomenologicamente em um determinado tempo pelo próprio autor, revelando de maneira elegantíssima o projeto conceitual que está plasticamente escondido por trás da obra de Platão.

Gabriele Cornelli (Universidade de Brasília e Presidente da International Plato Society 2013/2106)

 


Caso lermos os Diálogos numa outra perspectiva dialética e fenomenológica, cai toda uma tradição de 2.500 anos de interpretação de Platão

Por Hector Benoit

 

A odisseia de Platão: as aventuras e desventuras da dialética (2017), ainda que possa ser lido separadamente, é a continuação de meu outro livro, publicado em 2015 pela Annablume, e voltado para explicar a metodologia que utilizei nesta obra. Ambos os livros são versões modificadas da minha tese de Livre-Docência de 2004 e as principais ideias defendidas neles já apareciam em grande parte na minha tese de doutoramento de 1990. Portanto, estes dois livros são o resultado de mais de 25 anos de pesquisa e reflexão a respeito dos Diálogos de Platão.

 

Segundo meu método desenvolvido neste longo período, reconheço nos Diálogos quatro temporalidades:

1) Aquela da lexis (que em grego significa literalmente “a ação mesma do dizer”), aquilo que seria o seu modo de exposição, a temporalidade chamada por Hegel e Marx de Darstellungsweise. Neste caso dos Diálogos, a léxis seria constituída pela formação temporal constituída por todos os elementos simbólicos da obra, ou seja, os elementos particularmente apresentados nas chamadas “introduções”, mas, não somente nelas, que localizam de maneira precisa a maioria de suas obras, as temporalizam, e as ordenam fenomenologicamente. Os Diálogos teriam, assim, na léxis, uma ordenação imanente a partir da revelação de quando supostamente  teriam ocorrido aquelas conversas filosóficas; isto se faz com referência à idade dos personagens, aos fatos históricos citados, tais como batalhas, festas e festivais, julgamentos e outros acontecimentos. Ora, a partir de Aristóteles e do Neoplatonismo, e ainda hoje, todos esses elementos simbólicos, em geral, são pouco considerados, como se fossem elementos ditos “dramáticos” e que só teriam um interesse do ponto vista literário. Ao contrário, para mim, tal léxis seria o próprio mapa imanente de ordenamento de leitura dos Diálogos, o ordenamento final que Platão nos deixou como guia e ordenamento de sua obra. Essa léxis, que teria sido montada e remontada através de toda a sua vida, diversas vezes, indicando como realmente devemos ler os Diálogos.

 

2) Constatada tal lexis, poderíamos desvelar e deduzir uma certa e precisa temporalidade que eu chamo de “temporalidade da nóesis” (ou, literalmente, em grego, “a ação de pensar”), aquela que para os comentadores, em sua maioria, é constituída arbitrariamente, apenas, como diz Golschmidt, “obedecendo à comodidade de exposição da doutrina”. Seria chamada por Golschmidt de “tempo lógico”. Tal tradição, apesar de já aparecer em Aristóteles, se consolida definitivamente com o Neoplatonismo, no qual ocorre a predominância da preocupação de expor a “doutrina de Platão”, ou seja, a teoria das ideias, a teoria da procura do Bem supremo, a teoria do amor platônico, a teoria da imortalidade da alma, em suma, todas as doutrinas que são atribuídas a Platão pelos manuais de História da Filosofia e pela maioria dos comentadores. Ora, com isso desaparece toda a temporalidade construída e inscrita na materialidade simbólica, aquela da léxis. Evidentemente, o resultado dessa temporalidade ou “tempo lógico”, quando pensada isoladamente da léxis, não coincide em nada com aquela que pode ser deduzida da própria léxis, como ocorre na minha metodologia.

 

3) Em terceiro lugar, após a dedução da nóesis, podemos deduzir o que eu chamo de “temporalidade da gênesis“, pois a maioria dos personagens são conhecidos historicamente, viveram e morreram na Grécia dos séculos V, IV e III a.C, tais como Parmênides, Górgias, Protágoras,  Sócrates, Alcibíades, Críton, Crítias e tantos outros, como o próprio Platão. Os Diálogos supostamente decorrem claramente entre 450 a.C. (Sócrates muito jovem ainda no diálogo Parmênides) e 347 a.C. (morte de Platão, quando estava terminando As Leis).

 

4) Desta temporalidade da gênesis ainda pode ser considerada aquela que eu chamo de “a temporalidade da poiésis” , que seria a temporalidade de produção dos Diálogos, ou que os comentadores consideram como o tempo cronológico de quando teriam sido escritos por Platão cada um dos diálogos.

 

Curiosamente, estas temporalidades não coincidem na minha análise dialética e fenomenológica das temporalidades. Por exemplo, o diálogo Parmênides teria sido escrito somente no final da vida de Platão e seria um dos últimos na temporalidade da poiésis, mas, ao mesmo tempo, seria o primeiro absoluto na temporalidade da léxis, pois Sócrates tem apenas vinte anos. Partindo-se da minha análise, haveria coincidência somente entre as temporalidades da léxis e aquela da nóesis, pois a léxis teria sido construída por último (após muitas montagens e desmontagens) e seria a forma definitiva por meio da qual Platão nos teria deixado a leitura imanente da sua obra, e a sua significação conceitual última.

 

Ora, caso lermos os Diálogos nessa perspectiva dialética e fenomenológica, cairia toda uma tradição de 2.500 anos de interpretação de Platão. Em primeiro lugar, Sócrates e Parmênides, assim como Timeu e Crítias, e particularmente, o Estrangeiro de Eléia, não poderiam ser confundidos com Platão. O Platão da tradição milenar tombaria totalmente em uma série de aspectos fundamentais, particularmente na instância da ontologia e da política. Platão teria, realmente, através da figura misteriosa do Estrangeiro de Eléia, descoberto o caminho do não-ser, quebrado a teoria da identidade, e o Ser não seria o mesmo que si, mesmo quando se diz o Ser é o mesmo que o ser, pois para qualquer determinação do Ser ele teria de entrar em relação com o gênero de um outro. O Ser quando é o mesmo que si, é outro que o gênero do Mesmo. Isto dado na instância da ontologia abriria o caminho para destruir a teoria política de A República, que seria uma teoria socrática ainda fiel à lógica da não-contradição. O Bem jamais atingido não poderia unificar metafisicamente as coisas sensíveis e muito menos a permanente discussão política. Ora, é exatamente isto que se manifesta já no Político, no qual se reconhece que, caso não exista uma ciência política perfeita, é melhor obedecer às leis existentes do que se arriscar a que a cidade seja governada por um tirano ou um sofista. Nesse sentido, se afirma que, sem a verdadeira ciência política, a democracia seria o melhor de todos os governos. Exatamente por isso, o último dos diálogos, que teria permanecido inacabado, “As Leis”, recuperando em grande parte a experiência democrática grega e ateniense, elabora o projeto de uma nova cidade, uma cidade transitória, que se, no futuro, chegaria ao comunismo, no presente seria governada por uma teoria embasada nos conselhos, onde os chefes ou arcontes seriam eleitos diretamente, com as mãos levantadas, isto em todas as instâncias; mesmo nas forças armadas, os hoplitas elegeriam em assembleia os seus arcontes, da mesma forma fariam os arqueiros e os outros setores das forças armadas. De maneira igual, praticamente todos os cargos de chefia seriam eleitos democraticamente e o poder supremo seria ainda aquele de um conselho, o chamado “conselho noturno”, que se reuniria de madrugada para iluminar com a discussão contraditória o dia da cidade que, sobretudo, teria como objetivo chegar gradualmente ao comunismo (cf. Leis, 739c-d). Como diz, de maneira literal, o idoso ateniense, personagem principal das Leis, na seguinte passagem:

 

“Em primeiro lugar, temos a cidade, a forma de governo e as leis ideais, confirmantes, com satisfatória aproximação do antigo provérbio que nos mostra como tudo entre amigos é comum. Se tais condições se observam presentemente em qualquer parte, ou se algum dia chegarão a concretizar-se – serem comuns as mulheres, comuns os filhos, comuns todos os bens –, no caso de ficar banida o que se chama propriedade privada, e se conseguir, na medida do possível, tornar comum, de uma maneira ou de outra, até mesmo o que por natureza é nosso, como os olhos, os ouvidos e as mãos, de forma que todos pareçam ver, ouvir, ou trabalhar em comum, e que todos, a uma voz, dentro das possibilidades humanas, elogiem ou censurem as mesmas coisas, por se alegrarem ou se entristecerem com elas, e havendo, em suma, conseguido as leis amoldar a cidade na mais perfeita unidade que se possa conceber: ninguém jamais adotará critério melhor e mais acertado do que esse, para atingir o mais alto grau da virtude. Numa cidade assim constituída, quer seja povoada por deuses, quer por filhos dos deuses em grande número, seus habitantes viverão na maior alegria. Essa, a razão de não precisarmos procurar noutra parte a constituição modelo; bastará agarrarmo-nos a esta mesma e procurar, por todos os meios, pôr em prática a que mais se lhe assemelhe.” (Leis, 739c-d)

 

Evidentemente, apesar de estar todo esse conteúdo escrito nas Leis, que seria assim a primeira grande teoria política comunista, antecedida por um governo dos conselhos, a tradição de mais de 2.500 anos deformou Platão e atribuiu a ele como teoria política A República, uma teoria socrática autoritária e metafísica do poder, aquela do rei-filósofo e do Bem, uma teoria mais de acordo com os interesses das classes dominantes que por mais de 2.500 anos esconderam os ensinamentos do idoso Ateniense das Leis, aquele que, talvez, ele sim, teria coincidido com o verdadeiro Platão, algo que alguns autores da Antiguidade, como Cícero, chegaram a sugerir e suspeitar. Após as longas aventuras e desventuras da dialética, Platão teria chegado a compreender, no fim de sua vida, a contradição permanente que preserva a unidade dialética absoluta como a base para uma racionalidade que conseguisse ordenar os ventos, as árvores, os rios, a terra, as montanhas, os animais, as sereias e os homens, sem querer se apossar de forma privada da phýsis, verde phýsis, pulsão que sempre renasce como uma planta invencível. Assim, tragicamente, somente no fim de sua vida, Platão teria chegado a um projeto de racionalidade que rompesse com todas as desventuras que surgem para os humanos quando querem se sobrepor à pulsão originária da phýsis, quando, sem respeito, pretendem se encaminhar além (meta) da phýsis, ou, em outras palavras, realizar as desventuras que esperam todos os que pensam meta-fisicamente em nome, principalmente, da apropriação privada dos entes que se distribuem de maneira precisa pelo universo.

Hector Benoit, 14/10/2017, São Paulo

 
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