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Mulheres viajantes

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Mulheres viajantes : sete jornadas insólitas
Norma Telles   
Formato: 14x21 cm, 318 páginas
ISBN: 978-85-391-0882-4

 

Entre os séculos XV e XX, sete mulheres, Kempe, Merian, Wollstonecraft, David-Néel, Eberhardt, Daltro, Stark, cada uma em seu espaço e tempo, muito diferentes entre si, nos surpreendem por feitos que realizam com meticulosidade, perseverança, dignidade e humor.

Norma Telles, historiadora e doutora em ciências sociais, é estudiosa das humanidades, escritora e tradutora. Foi Professora Assistente Doutor da PUC-SP entre 1978-2006.

 

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À sombra dos feitos de homens, permanecem ocultadas viagens de mulheres desde épocas imemoriais

Por Norma Telles

 

O emprego do termo voyage, desde o século XVII, para designar tanto deslocamentos de vários tipos quanto a narrativa dessas experiências sugere a relação estreita entre a experiência vivida e a narrativa que, na cultura ocidental, se renova sem cessar desde as viagens fundadoras cantadas por Homero ou Virgílio e os mitos da Antiguidade Clássica, seguidos logo por aventuras de incontáveis exploradores e conquistadores registradas especialmente a partir do século XV.

 

A História, paralela aos valores dessa sociedade, registra os feitos de homens, mitológicos ou não, e assim legitima suas proezas. Nunca, porém, escutamos as vozes míticas de Europa, das mulheres de Troia, de Helena, ou Ariadne, Medeia, Dido, ou das andarilhas de tempos passados. A tradição das sociedades ocidentais modernas sustenta os feitos dos homens, mas dificilmente incentiva mulheres a agirem, a deixarem suas casas com o propósito claro de conhecerem regiões longínquas, bem ao contrário.

 

À sombra dos feitos de homens, então, permanecem ocultadas viagens de mulheres do norte ou do sul, de leste ou do oeste do planeta, desde épocas imemoriais. A narração é um procedimento de produção de sentido que ao se fazer introduz mudanças, atribuições de identidade e ações; é um sistema de eleição que permite decidir o que uma sociedade transmite para as gerações seguintes. A história positivista, factual, cultivada nos últimos séculos na cultura ocidental deixa de fora as mulheres, assim como vários outros grupos, deixa-as  à margem das grandes narrativas.

 

É no século XVII que, além de ter formulado a noção de voyage, também começa a ser organizado um itinerário para as pequenas grandes aventuras de aperfeiçoamento dos rapazes ricos da aristocracia britânica, itinerário conhecido como o Grand Tour. A partir de 1600, e até meados do século XIX, jovens que podiam dispor de tempo livre vão ao continente, após se formarem, em busca de cultura. Primeiro Paris e depois as cidades italianas – Roma, Florença, Veneza, Nápoles –, onde ficam expostos à herança da Antiguidade Clássica e do Renascimento. Aos jovens ingleses gradativamente se juntam outros europeus ricos ou nem tanto, e essa é a origem daquilo que atualmente chamamos turismo. Esses roteiros vão se alargando e a partir do final do século XIX são para quem possa pagar viagens previamente arrumadas por países distantes. Um dos mais renomados viajantes do Grand Tour, Goethe, se faz retratar junto às ruínas romanas e escreve um relato de sua estadia na Itália que se torna um clássico. Goethe é também quem, em sua história de Fausto, descreve o Eterno Feminino como ‘ideal de pureza contemplativa’, contraposta ao ideal masculino de ‘ação significativa’, base das noções modernas sobre o feminino e masculino.

 

Nesses mesmos movimentos no início da Era Moderna, as mulheres são lançadas cada vez mais para dentro de casa, com o corpo espremido dentro de cintas e espartilhos e a alma apertada pelas banalidades de suas vidas. Nos países ocidentais, elas não têm independência legal, pertencem a pais, irmãos ou maridos, não recebem educação formal, não podem assinar contratos, adquirir ou ter propriedade, não podem viajar sem licença.

 

Para ser breve, basta observar a diferença da conotação de gênero na palavra aventureiro/a: na versão masculina indica ação, coragem, desenvoltura, mas quando empregada às mulheres conota o sentido de amor venal. Então, nessa sociedade, homens realizam aventuras que trazem novos conhecimentos ao bem comum e “as mulheres, têm amantes”, para lembrar a tão repetida frase de Andre Malraux.

 

Tornou-se costume datar por volta de 1850 os primeiros casos de mulheres viajantes, coincidindo com a expansão por todo o globo do poderio dos impérios europeus. É preciso notar, em mais detalhes, que apesar das proibições, existiram sempre mulheres que ansiaram partir e o fizeram, realizando explorações, mapeando territórios, empreendendo longas jornadas. Peregrinação é um motivo bastante usado, mas não o único, para saírem de casa. Desde o primeiro milênio da era cristã, ricas matronas romanas organizavam viagens em grupo ou partiam sozinhas para peregrinação a lugares santos. A imperatriz Helena de Bizâncio, mãe de Constantino, por exemplo, viajou várias vezes para Jerusalém, Sinai e Belém, no século IV, e ali fundou igrejas. Foi ela quem estabeleceu os padrões para as posteriores visitas dos peregrinos. Logo surgiu comércio por toda a rota lucrando com as peregrinações.

 
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