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A ordem social como problema psíquico

 

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A ordem social como problema psíquico: do existencialismo sociológico à epistemologia insana
Gabriel Moura Peters
Formato: 16x23cm, 458 páginas
ISBN: 978-85-391-0721-6

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Antes que a ordem social seja estabelecida por um consenso normativo, a sociedade é construída por uma miríade de práticas ordinárias e rotinas estabelecidas

Por Frédéric Vandenberghe

 

Diferentemente dos filósofos, os cientistas sociais não se perguntam por que há alguma coisa ao invés de nada. Para eles, essa questão metafísica somente começa a fazer sentido quando reformulada como uma questão de ordem social. Como a sociedade é possível? Por que não há uma guerra de todos contra todos? Por que as ações não são aleatórias? Como ego e alter podem coordenar suas ações? Na verdade, no mundo real, a questão da ordem social sempre se encontra já resolvida. Na guerra, assim como em comunidades violentas controladas pelo narcotráfico, sempre há ordem de algum tipo. Caso contrário, sequer poderia haver conflito. Os cientistas sociais propõem a questão apenas como um jogo de linguagem transcendental que os permite investigar as condições de possibilidade da interação social e da integração sistêmica.

 

O mérito deste brilhante novo livro de Gabriel Peters, um jovem teórico cada vez mais conhecido, é mostrar que, para as pessoas que sofrem de doença mental, tais questões filosóficas não são somente teóricas, mas também eminentemente práticas. Por que há nada ao invés de alguma coisa? Como posso ter certeza de que o mundo não acabará amanhã? Como sei que o outro não é um produto da minha imaginação? Em continuidade com a abordagem praxiológica de Anthony Giddens e Pierre Bourdieu que Gabriel explorou em seu primeiro livro, Percursos na teoria das práticas sociais, ele agora enfrenta a questão da “insegurança ontológica” e dá a ela uma guinada cognitivista. Antes que a ordem social seja estabelecida por um consenso normativo, a sociedade é construída por uma miríade de práticas ordinárias e rotinas estabelecidas. Normalmente, as práticas fluem, mas, em tempos de desajustes e crises existenciais, a ação se torna problemática. As interações não podem mais ser coordenadas, e a ordem social local parece à beira do colapso. Por debaixo da ordem social, há uma (des)ordem psíquica, e toda a empreitada desta epistemologia insana é torná-la visível. Para aqueles que vivem em uma realidade alternativa, o problema da ordem e do caos social é, de fato, agudo.

 

Para chegar ao fundo das pressuposições psíquicas que sustentam o mundo e o tornam inteligível, estável e previsível, Gabriel radicaliza os famosos “experimentos de ruptura” de Garfinkel. No entanto, diferentemente da nanossociologia da etnometodologia, essa metassociologia não é empírica, mas fenomenológica. Baseado em extensas leituras da psicopatologia existencial, o autor descortina sistematicamente, através de variação e negação, todas as condições de felicidade da ação ordinária. Certamente, hiper-reflexividade, hipocondria, transtorno obsessivo-compulsivo e surtos psicóticos, para nomear apenas algumas das aflições que perturbam sistematicamente a cumplicidade entre o ator e o mundo, não são parte daquelas condições de felicidade. Ainda assim, graças a essa terrível reductio ad absurdum, sentimos não apenas a precariedade do mundo social, mas também a fragilidade da condição humana. Como sempre, o encontro com a loucura é difícil. De alguma maneira, ele é também terapêutico e dá ao livrocerto charme de autoajuda.

 
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