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Sapos e princesas

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Sapos e princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil
Anna Paula Vencato
Formato 14x23 cm, 274 páginas
ISBN 978-85-391-0557-1

Sapos e Princesas resultou de uma pesquisa sobre homens que praticam crossdressing. Mostra como o “vestir-se de mulher” é negociado com suas famílias, amigos, outras crossdressers. Questões como manejo do estigma e o prazer de montar-se mulher norteiam o texto de forma que suas histórias evidenciam que antes de compreender crossdressers como “marginais” ou “desviantes” é melhor entender como constroem uma vida dupla que coloca em xeque uma separação absoluta entre o que é desvio e o que é norma social.

 

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Nos seus primórdios, a antropologia brasileira se estabeleceu através do estudo das populações consideradas exóticas pela elite intelectual do país; sobretudo os índios e os negros. Central a essa pesquisa foi a preocu­pação com a identidade nacional, a própria construção da nação, sempre com o pressuposto da eventual assimilação daquilo que era diferente, resultando numa cultura nacional híbrida.

 

A partir da década de 1970, sobretudo, alguns antropólogos no Brasil começaram a olhar para assuntos e atores sociais mais próximos a eles, transformando, na feliz expressão de Roberto DaMatta, aquilo que parecia familiar em exótico. Liderando esse processo, o próprio DaMatta transformou a nossa maneira de entender o Carnaval de algo do reino do puro divertimento, ou pão e circo, para subjugar as massas em um evento capaz de ritualizar aspectos fundamentais da experiência social brasileira.

 

Essa démarche da antropologia não se deu em qualquer vazio social, tanto é que o olhar antropológico se concentrou mais intensamente justamente naquelas questões que caracterizaram as mudanças sociais (migração de mão de obra, por exemplo) e que começaram a ocupar um lugar no mundo da política, entre elas questões de sexualidade e gênero. Já na década de 1970, apareceram as primeiras dissertações e teses sobre prostituição feminina, aborto, violência doméstica, transformações na po­sição das mulheres, manifestações culturais que questionavam os papéis de gênero convencionais e os primeiros passos do movimento homossexual.

 

A questão da construção da nação mudou de figura. Com a Constituição democrática de 1988, e o surgimento do conceito de direitos humanos, a ênfase caiu cada vez mais na compreensão da constituição de identidades sociais diversas e das suas reivindicações de reconhecimento e direitos. Em vez de imaginar uma cultura nacional homogênea, celebra-se a diferença. Diversidade cultural se torna um valor em si.

 

Um resultado disso é que a antropologia brasileira foi montando um mapeamento minucioso de movimentos sociais e formas de viver antes conhecidos por poucos. Na medida em que o movimento homossexual, por exemplo, encoraja pessoas que amam pessoas do mesmo sexo a es­cancararem as paredes dos armários, etnógrafos como somos, mapeamos a crescente diversidade de sexo/gênero no Brasil, revelando estilos de vida, a comercialização do sexo, a segmentação do mercado de consumo, a pornografia, a religião e a sexualidade, e até escancararem as portas dos lugares mais recônditos para encontros de ordem sexual/afetiva. Ao longo desse processo, as identidades multiplicam-se, formando o que Regina Facchini chamou “uma sopa de letrinhas”. Do mundo composto de bi­chas, bofes, lésbicas, sapatões, entendidos e travestis no início da década de 1970, passamos por GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) para agora lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, formando a sigla LGBTT. Nessa explosão de identidades, há mais uma que ainda não tomou o seu lugar nas siglas oficiais, o “C” de crossdressers.

 

Esse livro de estreia de Anna Paula Vencato vem para preencher essa lacuna. Armada com o espírito etnográfico do século 21, Anna Paula fez as primeiras aproximações através da internet. Costurando confianças – no momento do início da pesquisa as crossdressers tendiam a manter radical­mente separadas as suas vidas de sapo (homens) e princesas –, aos poucos foi sendo incorporada como simpatizante no Brazilian Crossdresser Club (BCC). Entre 2007 e 2009, então, ela teve o privilégio de acompanhar o clube, observando as suas atividades e entrevistando os seus membros. A gloriosa etnografia das Olim...piadas aparece logo no início do livro para que o leitor possa entender melhor as crossdressers e para levantar as questões que a autora tratará de responder ao longo dos capítulos sub­sequentes. Isso ela faz trazendo o material das entrevistas bem como a cuidadosa observação da vida cotidiana dos membros do Club. O leitor poderá entrar no Le Closet, apartamento no Largo do Arouche alugado por um grupo de crossdressers para se montarem com a ajuda dos seus Supportive Others (SO’s), espiar as férias do Holiday en Femme e ainda acompanhar as crossdressers nos seus jantares no Largo do Arouche.

 

O leitor desavisado poderia se perguntar se crossdressers não eram travestis com nome inglês. Mas quando se trata da crescente diversidade de sexo/gênero, uma característica importante são as sutis distinções entre identidades em constante formação e fluxo. Esse livro revela que embora crossdressers, como travestis, se montam com roupas associadas às mulheres, a semelhança acaba aí. Muitos deles/delas têm esposas mulheres e, se desenvolveram uma série de comportamentos, etiquetas e valores que distinga uma identidade da outra, não menos complexos são os procedimentos para manter relativamente separadas as suas vida en femme (princesas) e de sapo. Mas mesmo nesse aspecto, mudanças são rápidas. As crescentes visibilidade e aceitabilidade de formas de agir antes proscritas, e a própria experiência do BCC, fizeram com que algumas associadas deixassem o clube, não precisando mais dele para se montar. Perdendo os receios, andam sozinhas pelas ruas. É essa velocidade da mudança social que faz com que tudo que os antropólogos estudam se torne logo história. E é por isso que uma boa antropologia é aquela que sabe passar para o papel a experiência única da pesquisadora e o meio no qual pesquisa. É isso que Anna Paula Vencato tem feito nesse texto lúcido e fascinante.

Peter Fry é doutor em Antropologia Social pela Universidade de Londres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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