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A multidão foi ao deserto

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A multidão foi ao deserto: as manifestações no Brasil em 2013 (jun-out)
Bruno Cava
Formato 16x23 cm, 156 páginas
ISBN 978-85-391-0603-5

“Um dos autores se vê sendo levado até a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, sem que tenha tido tempo de pensar. Toda a sua linguagem exala um apaixonado foucaultianismo, a veraz narração de sua experiência (realmente forte como texto) vem eivada de palavras-chave do pós-estruturalismo francês: o “corpo” nietzscheano retomado por Deleuze e pela “política do corpo”, que ecoa nos livros de Toni Negri. A impressão que dá é de que o autor carioca deslumbra-se por estar vivenciando tudo aquilo que ele amava na literatura desses filósofos. Mas não que isso destrua a força da reavaliação dos atos ditos vândalos, praticados por aqueles encapuzados que vimos na TV, que seu texto sugere. Não. A gente percebe que a violência da destruição direta das ferramentas concretas do poder instituído tem papel propriamente político importante – e não apenas o de ser pretexto arranjado para justificar golpes.”

(Caetano Veloso, no Jornal O Globo, 22/6/2013)

 


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Os ventos de junho continuam soprando no Brasil. O outono virou primavera. Não um movimento efêmero, mas uma bifurcação. A partir de junho, é possível lutar contra o “lulismo” sem cair nas armadilhas do partido da elite neoescravagista, representada pela grande mídia. Os jovens que só conheceram o governo Lula e seus tímidos avanços decretaram: “queremos mais e melhor”! Amalgamando as lutas de índios e pobres na riqueza e persistência de suas diferenças, a multidão foi capaz de também insurgir-se contra o terror que o estado instaura para tentar reduzir as favelas a senzalas. Os mascarados têm nome, são as Amarildas e Amarildos, que hoje lutam nos morros, subúrbios, periferias e também no Leblon e na Cinelândia.


A multidão foi ao deserto, rumo à construção de um novo povo e de uma nova terra. Socorristas, advogados ativistas, coletivos de projetação, mídias independentes, táticas de autodefesa (black blocs) e professores das redes municipais e estaduais: a multidão se faz renovando o sincretismo brasileiro, no devir-constituinte e metropolitano das greves da cidade, entre a política dos corpos belos e potentes e as poéticas das ruas. O que Bruno Cava reuniu aqui são potentíssimos fragmentos poéticos dessa política dos corpos. Uma narrativa e uma elaboração teórica escrita no ritmo dos acontecimentos, na fumaça dos lacrimogênios e no meio do barulho das balas de borracha e dos slogans e gritos de resistência dos manifestantes, no devir do êxodo. O livro de Bruno Cava é um evento no evento, mais um belo momento de luta.

Giuseppe Cocco
(Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro)

 



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Falar enquanto segue a correnteza do Rio não é coisa fácil pra ninguém. Estar nas ruas a partir das 18 horas, às vezes por até dois dias durante a semana, e conseguir alcançar os saltos necessários para fazer um esforço de entendimento das diferentes escalas do que está acontecendo nas ruas, nos trilhos, nas orlas e nas favelas do Rio de Janeiro também não é nada fácil.

Apesar disso, tem gente que enquanto os olhos descansam dos sprays vencidos da polícia do estado, pensa em tudo que viu e viveu e faz pontes interessantíssimas entre o campo das lutas e o das ideias. A tática é como a das ruas, combinar teoria, realidade e ficção para fazer um barricada que possa proteger, garantir um vinagre, um suspiro, para em seguida continuar. Motivado pelo desejo construir um chão de cimento ainda fresco de ideais e possibilidades, para que os manifestantes possam caminhar em terras firmes com essas duas forças. Talvez sejam esses dois dos campos de luta, um que se trava fisicamente nas ruas, e um outro em seguida, na internet, nas redes sociais, através das ideias e opiniões. Dois campos, jamais dois lados.
A pimenta ainda está no ar. A lava do vulcão que explodiu em junho começa, aos poucos, a tomar forma, e algumas coisas podem ser entendidas. As mídias, os partidos, os movimentos sociais e os manifestantes. As ruas, as ocupações, as prisões arbitrárias e os sumiços. A performance, as máscaras e o vandalismo. A tática do fraco contra a estratégia do forte. O exército de Robocops contra a intrépida trupe de preto. Cada vidraça quebrada, um sonho que explode. Poesia que nasce na pedra. As tramas que só podem ser enxergadas de perto, nos olhos por entre as máscaras. Não é pouca coisa para ler.

Minha escola foi a rua e a faculdade foi a internet. Na rua só se lêem os textos e histórias dela. Nos chats tomei gosto por escrever e nos blogs e redes sociais comecei a ler mais. Cheguei aos livros só depois disso. Antes lia os blogs que me interessavam, e depois com o Facebook, passei a adicionar as pessoas também, para ver o que pensavam das coisas que aconteciam no mundo. Bruno Cava foi um desses. Adicionei sem conhecer, e comecei a ler o que ele escrevia e entender suas ideias a respeito de um monte de acontecimentos aqui e no mundo, e apesar dos mergulhos teóricos eu ainda conseguia subir à superfície com ar.

Além da oportunidade de acompanhar seu blog e seu Facebook, com o tempo passei vê-lo falar nos encontros do meio acadêmico dentro e fora das universidades e nas rodas de conversa, sentado no chão, do Occupy Cinelândia e as várias outras reuniões discutindo as manifestações no mundo e o comum que aconteceram de 2011 até hoje, na qual o Bruno, o pessoal da rede UniNômade e do coletivo Direito do Comum enriqueciam muito o debate e estavam sempre presentes. Em todas as passeatas e rodas com microfone humano, escutei-os falar. Aprendi muito mesmo com essa rapaziada.

Quando escrevi um texto sobre o Norte Comum, na virada de 2011 para 2012, utilizei a definição de comum que o Cava tinha feito em um, dos vários textos do seu blog, O quadrado dos loucos, que eu entendi muito bem, “Comum enquanto cooperação participativa, como cultura e política como processo social que não se separa dos sujeitos em atividade, de um imaginário da revolução permanente, que começa por si mesmo, pelas formas de organização, circulação, comunicação e trabalho social e socializado.” . E é desse comum mesmo que tratamos na palavra que acompanha o caminho, a direção. Um caminho comum, uma cidade comum.

Esse comum, e essa multidão tão discutida na primeira década desse século, é a que explode agora com as manifestações de rua incessantes no mundo inteiro desde a Praça Tahrir. A internet e as lutas. As vozes em diferentes línguas e as conexões que as fazem mais forte. O Rio de Janeiro vive um momento ímpar em sua história. Os 100 mil ficaram pequenos diante da quantidade de pessoas na Avenida Presidente Vargas no dia 20 de junho. 500 mil, um milhão, é o que menos importa. O que vale é a saída da sombra dos anos 70 que a nossa geração deu. As mensagens fragmentadas de Chico Science e dos raps que ecoam das periferias do Brasil hoje fazem a trilha sonora dos vídeos das manifestações.

Para não dizer que não falei das flores, parece que estamos no momento de decidir em começar a andar pra frente olhando para frente, e não mais andando para frente de costas, olhando para trás, tendo como horizonte de ícones e símbolos os anos 70. O que mais se escuta hoje em dia é: eu jamais ia imaginar que viveria esse momento. No dia da Presidente Vargas, troquei sms com a minha mãe, e falei que tinha muito mais do que 100 mil. Ela nos parabenizou, sem ter medo do que está por vir. E é esse medo que tem assolado aqueles que preferem planos e projetos, que não conseguem pensar caminhos outros para além dos que estão dados (e em crise) e de que toda mudança tem que passar pelos votos e pelos partidos, que apesar de toda sua importância vivem momentos confusos e cada vez mais obscuros, tanto a nível de linguagem quanto a nível de representação.

Aliás, é sobre medo que o Bruno escreveu a coisa mais bonita que já li dele, no Facebook, e não mais esqueci. Dizia que todos temos o direito ao medo, o medo que até o marinheiro sente longe de terras seguras em meio a tormenta, mas que encarando-o como desafio de viagem, caso não venha a te fazer parar, pode se tornar um grande amigo. E foi isso que ele fez, escreveu sem medo desde que escutou a primeira bomba explodir em junho.

O que esse livro guarda, é o registro de um pensamento rápido, como as táticas das ruas, para não deixar que algumas verdades sejam ocultadas ou esquecidas, com a legitimidade de um cara que conhece bem das leis e do cinema, atravessando a ficção na realidade, para conseguir continuar dando esses saltos ou subidas nos andaimes de pensador-manifestante que ainda tem preservada sua autonomia política e criativa para fazer as leituras dos vários textos que a multidão escreve.

Carlos Meijueiro
(mestrando em Cultura e Territorialidades pela UFF)
Serviço:
A multidão foi ao deserto: as manifestações no Brasil em 2013 (jun-out)
Bruno Cava
Formato 16x23 cm, 156 páginas
ISBN 978-85-391-0603-5
 
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