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Lacan e o feminismo

 

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Lacan e o feminismo : a diferença dos sexos


Psicanálise e feminismo cresceram em debate – dos anos 20-30, nos quais um alegado freudismo detrator das mulheres era internamente contestado por Horney, Deutsch e Jones, aos anos 70, sob a ebulição do feminismo francês. Neste contexto, Lacan é discutido por figuras próximas como Irigaray, Cixous, Montrelay, Kristeva e Wittig — se se enaltece a ênfase
dada à linguagem, ainda se insiste em um presumido ranço patriarcal a
participar da engrenagem do registro simbólico e do Édipo estrutural,
crítica esta ratificada do outro lado do Atlântico, na pena de Rubin. Lacan
acompanhava tudo de perto e tomando o Mouvement de Libération des
Femmes como interlocutor, desenvolve sua teoria da sexuação – que, por
sinal, parte da contestação da tese stolleriana do “núcleo de identidade
de gênero”. Mais recentemente, a acusação dos gender studies de que a

 

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Obra é uma verdadeira arqueologia do debate  entre feminismo e psicanálise,

Por Christian Dunker


A geografia teórica que se desenha no livro de Cossi inclui o “french thought ”, ou seja, a recepção do pensamento francês, notadamente estruturalista e pós-estruturalista, nas universidades americanas. Claro que para um lacaniano “puro-sangue” (ainda que de província), isso só pode significar “Estados Unidos” e logo, psicanálise ruim. Gayle Rubin dizia que a psicanálise é uma teoria feminista “manqué”, brincando com a expressão “garçon manqué” para designar aquelas mulheres que são “como rapazes mancos”. Lendo Lévi-Strauss com Lacan, este texto, fundador do feminismo americano, tem sido obliterado no que toca a sua evidente influência psicanalítica, pelas próprias feministas. Também Monique Wittig e sua reforma discursiva de amplo espectro, envolvendo uma nova disciplina e atenção ao uso das palavras, teria sido impossível sem Lacan e sua teoria do discurso.

Fato é que os comentários de Lacan sobre Stoller no Seminário XVIII são infelizes e sua teoria da transgeneridade, pensada como foraclusão, é muito frágil e deu origem a inúmeras consequências terapêuticas problemáticas. Sim, a clínica psicanalítica precisa da crítica feminista, caso contrário ainda estaríamos recomendando ou vetando cirurgias de redesignação de gênero a partir do pré-diagnóstico de psicose. Sim, a teoria feminista tem bons motivos para manter resguardo em relação à psicopatologia. Mas não, em nome disso ela não deveria ignorar que existe um sofrimento de gênero, que sintomas e inibições constroem gêneros tanto quanto ideologias e preconceitos. O feminismo não deveria temer a psicopatologia, nem fofocar pelos cantos quando seu nome é pronunciado, mas trabalhar pela construção de uma psicopatologia crítica, capaz de acolher o sofrimento de gênero sem que isso signifique silenciamento e desligitimação de opressões sociais.

Não é preciso ser essencialista para argumentar que sintomas, e o inconsciente em última instância, nos afeta a todas e não-todos. Sim, a teoria feminista deve lutar para que sua causa não se transforme em um novo capítulo da apropriação cultural e que a voz das mulheres oprimidas seja empregada pelos ventríloquos teóricos da esquerda ou da direita. Mas não, isso não confere ao conceito de “lugar de fala” uma fundamentação empírica e imediata, para além de sua dimensão estratégica. Quando Spivak fala em “essencialismo estratégico”, em uma de suas entrevistas, ela obviamente está contando com a teoria lacaniana dos discursos e sua crítica da posição do eu como identificação imaginária a todo e qualquer semblante, inclusive o de “homem” ou “mulher”.

Neste ponto, o livro que o leitor tem em mãos concorre para a ideia de que tanto o feminismo quanto a psicanálise, não passam de estratégias, sendo cada qual insuficiente para operar uma verdadeira política quando se trata da ocupação do espaço público. Universalismo e particularismo são, portanto, pólos em torno dos quais este trabalho orbita. A crítica psicanalítica da noção e da instrumentalização política da identidade de gênero é equilibrada por uma teoria dos semblantes como diferença sexual, produzida pela performance iterativa daquilo que não cessa de não se escrever e do que cessa de se escrever.

 
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